Amputação em cães e gatos, como se programar e o que esperar?
- jiulisalles

- 11 de set. de 2022
- 4 min de leitura
Até pouco tempo as amputações eram realizadas com o pensamento de que “tudo bem, o animal tem mais de duas pernas”. Essa era a visão não apenas do veterinário cirurgião, mas também dos familiares.
Atualmente tivemos grandes melhorias no tratamento da dor, mas o pensamento de que “ele tem mais de duas pernas”, ainda é bastante prevalente e precisa mudar, principalmente entre os cirurgiões que realizam amputações de membros, pois um controle efetivo das dores pode, muitas vezes, evitar que a amputação seja necessária, como em alguns casos oncológicos, por exemplo.
Outro pensamento que sobreviveu por décadas é o de “tirar o máximo possível” do membro amputado. A suposta lógica por trás disso era que, se não fosse removido o máximo possível do membro, o animal não esqueceria aquele membro e tentaria usar o que restou, causando danos à extremidade desse membro. Alguns veterinários, especialmente aqueles que trabalham com reabilitação, se conscientizaram de que este pensamento presta um grande desserviço aos amputados.
Assim como na medicina, os animais se beneficiam ao manter o máximo possível de um membro, aumentando muito as opções de próteses disponíveis para o indivíduo no pós-operatório.
Outro problema que esses pacientes e seus cuidadores encontram no pós-operatório é a falta de suporte veterinário, após alta. Próteses e reabilitação raramente são recomendadas como uma opção e o controle da dor, não costuma ir além de poucos dias de anti-inflamatório no pós-operatório. No entanto, esses pacientes podem ter problemas de dor por vários meses, mesmo com uma prótese, à medida que aprendem a usar o dispositivo corretamente.
Para aqueles que estão agendando amputação para seu animal, algumas recomendações podem ser seguidas:
1. Se o animal ainda não perdeu o membro, a primeira coisa que você precisa fazer é entrar em contato com um fabricante de prótese de confiança. Todas as próteses devem ser feitas sob medida. Certifique-se de que a empresa entre em contato diretamente com o cirurgião de como gostariam que o membro amputado ficasse após a cirurgia. Se o seu veterinário ou cirurgião não estiver familiarizado com próteses, peça um encaminhamento para um veterinário que seja certificado em medicina de reabilitação.
2. Pergunte ao cirurgião o que será feito para o controle da dor durante a cirurgia pois, bloqueios de nervos com anestésicos, impedem completamente que os sinais de dor cheguem ao cérebro e medula espinhal. Se for uma amputação de membro posterior, a anestesia epidural ou local também deve ser utilizada.
3. No período pós-operatório imediato, anti-inflamatório, opióide e medicamentos chamados gabapentinóides - que ajudam a "desligar" alguns dos sinais de dor para a medula espinhal, são medicamentos que devem ser considerados.
4. Caso o animal já apresente dor no membro a ser amputado, o que é muito comum, é importante que o tratamento da dor se inicie dias antes da cirurgia. Isso pode ajudar muito no controle da dor pós-operatória.
5. Assim que a cicatrização estiver completa ou conforme indicado pelo fabricante, prepare-se para utilização da prótese e inicie a reabilitação. Tenha em mente que pode levar meses até que o paciente se adeque completamente.
Mas e se o animal já sofreu a amputação?
Dependendo de cada caso, pode haver várias questões envolvidas, as principais são:
1. A primeira questão, e mais difícil, é o desenvolvimento de condições chamadas hiperalgesia e alodínia – uma sensibilidade dolorosa aumentada, dor espontânea e/ou dor ao toque suave da região – resultado de condições de dor não tratadas adequadamente.
2. O segundo problema frequentemente visto em amputados é algo chamado Síndrome Dolorosa Miofascial (SDM). Essa condição dolorosa pode se tornar a principal fonte de dor e pode se localizar na musculatura do coto e em outros lugares, pela tentativa de compensar o membro perdido, deslocando o peso para as “pernas boas”.
Vamos falar sobre a hiperalgesia e alodínia primeiro. Quando a medula espinhal recebe uma enxurrada constante de sinais de dor (como no caso de uma amputação), ela pode responder aumentando sua sensibilidade aos sinais recebidos. Ela pode recrutar fibras nervosas que não eram sensíveis à dor (como as usadas para o toque) e as torna fibras de dor. Essas alterações podem se tornar permanentes se não forem tratadas e nem sempre são reversíveis.
Se um paciente for diagnosticado com hiperalgesia e alodínia, várias abordagens podem ser feitas:
A primeira delas é ter certeza de que a causa da dor inicial esteja sendo tratada, caso ainda estiver presente.
Os gabapentinóides e antidepressivos são fármacos que, não apenas bloqueiam os sinais de dor, mas também modulam células nervosas que estão relacionadas aos estados de dor crônica.
Antagonistas do receptor NMDA, podem ser usados para “desligar” uma das vias de dor na medula espinhal.
Os AINE’s (anti-inflamatórios não esteroidais) podem ajudar a controlar a dor e a inflamação em muitos níveis do caminho da dor, desde as terminações nervosas periféricas até o cérebro.
Finalmente, a presença de síndrome dolorosa miofascial (SDM) deve ser diagnosticada, pois é um dos maiores problemas de dor encontrada em amputados.
SDM é complexa, mas seu tratamento é relativamente simples. A técnica de “agulhamento seco” costuma ser útil e envolve a inserção de agulhas de acupuntura nos músculos acometidos, proporcionando alívio da dor.
A prevenção e tratamento da dor são complexos para os animais amputados, e este texto abordou superficialmente a questão. Estas informações devem ser usadas como um norte para iniciar a conversa entre você e seu veterinário e ajudar o animal a receber o tratamento necessário para resolver qualquer dor que ele possa ter.





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