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Avaliação da gravidade e progressão da síndrome de disfunção cognitiva canina usando a Escala de Demência Canina (CADES)

  • Foto do escritor: jiulisalles
    jiulisalles
  • 24 de jul. de 2025
  • 6 min de leitura

O artigo intitulado "Assessment of severity and progression of canine cognitive dysfunction syndrome using the CAnine DEmentia Scale (CADES)", de Madari et al. (2015), detalha o desenvolvimento e a validação de uma nova escala de classificação para avaliar a severidade e a progressão da Síndrome de Disfunção Cognitiva (SDC) em cães.

 

  • Introdução - Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina


A Síndrome de Disfunção Cognitiva (SDC) é uma condição neurodegenerativa progressiva que afeta cães envelhecidos, análoga à demência em humanos. A SDC leva a um declínio nas funções cognitivas, como memória e habilidades de aprendizado, e a mudanças comportamentais significativas. A prevalência da SDC é alta em cães mais velhos, variando de 28% em cães de 11 a 12 anos para até 68% em cães de 15 a 16 anos.

Os sintomas clássicos da SDC são frequentemente descritos pelo acrônimo DISHA: Desorientação, alterações na Interação social, distúrbios do ciclo Sono-Vigília, eliminação inadequada em casa (House soiling) e alterações na Atividade. Apesar de sua prevalência, pouco ainda se sabe sobre a progressão e as diferentes fases da SDC.

 

  • A Necessidade de uma Nova Ferramenta: CADES


Há a necessidade de escalas de classificação eficazes para o diagnóstico, estadiamento, avaliação e monitoramento da SDC, bem como para a medição da eficácia de tratamentos. Muitas escalas existentes para a SDC não foram adequadamente validadas psicometricamente e apresentam limitações significativas. Por exemplo, algumas dependem fortemente da avaliação subjetiva dos proprietários por telefone ou questionários online, o que pode levar a imprecisões. Além disso, as abordagens de pontuação anteriores podiam ser enganosas ou não quantificavam a frequência dos sintomas de forma precisa.

Em resposta a essas limitações, os pesquisadores desenvolveram a CAnine DEmentia Scale (CADES), uma ferramenta projetada para ser sensível ao estadiamento da doença e às mudanças ao longo do tempo.

  

  • Desenvolvimento e Estrutura da Escala CADES


A escala CADES foi desenvolvida para ser um instrumento de rastreio rápido e validado. Inicialmente, o questionário era mais extenso, com 6 domínios e 40 itens. Após testes-piloto e discussões com proprietários, foi refinado para 17 itens distribuídos em quatro domínios principais:

A - Orientação Espacial: Refere-se à capacidade do cão de se localizar em ambientes familiares.

B - Interações Sociais: Avalia mudanças na forma como o cão interage com pessoas e outros animais.

C - Ciclos de Sono-Vigília: Observa alterações nos padrões de sono e atividade noturna.

D - Eliminação Inadequada em Casa (House Soiling): Diz respeito a comportamentos de micção ou defecação em locais inapropriados.

Cada item é avaliado usando uma escala de 5 pontos, que quantifica a frequência do comportamento anormal:

0 pontos: Comportamento anormal nunca observado.

2 pontos: Observado pelo menos uma vez nos últimos 6 meses.

3 pontos: Observado pelo menos uma vez por mês.

4 pontos: Observado várias vezes por mês.

5 pontos: Observado várias vezes por semana.

É importante notar que, para preencher o questionário, os veterinários conduziam uma entrevista detalhada com o proprietário do cão, minimizando a subjetividade da avaliação.

 

  • Metodologia do Estudo


O estudo analisou mais de 300 cães com mais de 8 anos, dos quais 215 foram selecionados para a pesquisa após a exclusão de 85 cães com outras condições médicas que pudessem mascarar os sintomas da SDC. A população de estudo incluiu cães de 8 a 16,5 anos, de diversas raças e pesos.

Para a análise longitudinal, 64 cães foram reavaliados após seis meses, e 17 foram reavaliados uma terceira vez após 12-14 meses. Todos os cães passaram por exames neurológicos, ortopédicos, raios-X, ultrassom, ECG, além de análises de sangue e urina para descartar causas médicas para o declínio comportamental.

  

  • Validação Psicrométrica da Escala CADES

 

As etapas de validação da CADES:

Compreensão e Clareza: A escala foi inicialmente testada em 30 cães para garantir que todos os itens fossem compreensíveis e inequívocos. Itens redundantes ou difíceis de serem respondidos pelos proprietários foram removidos. O domínio de ansiedade, por exemplo, foi retirado porque não refletia a severidade da doença e não era sensível ao estadiamento da mesma.

Efeito Chão (ou piso) e Teto: Os domínios A, B e D apresentaram pouco ou nenhum efeito chão (ou seja, os cães não podiam piorar), enquanto o domínio C teve um efeito chão mínimo (0,03). Efeitos teto (cães não podiam melhorar) foram observados em cães normalmente envelhecidos, mas foram limitados nos domínios B e C em cães com comprometimento.

Confiabilidade Teste-Reteste: A precisão da escala foi avaliada através de duas avaliações do estado cognitivo e comportamental dos cães em um intervalo de duas semanas. A correlação foi muito alta e estatisticamente significativa (r = 0,9977, P < 0,001), demonstrando a alta confiabilidade do CADES.

Correlações Domínio-Total: Todos os quatro domínios (A, B, C, D) se correlacionaram bem com a pontuação total da escala (com coeficientes r variando de 0,83 a 0,87, P < 0,001), indicando que cada parte da escala contribui significativamente para a medição da SDC.

Sensibilidade à Mudança: A escala mostrou alta sensibilidade para detectar mudanças ao longo do tempo. O domínio B (interação social) foi o mais sensível (SRM = 1,1), seguido por A e C (SRM = 0,7 cada), e D (SRM = 0,6). A bateria completa demonstrou alta sensibilidade à mudança (SRM = 1,7).

Análise de Componentes Principais (PCA): A PCA revelou que os domínios A, B e D agrupam-se no primeiro componente principal, explicando 72,87% da variância total, enquanto o domínio C (ciclos sono-vigília) forma um segundo componente principal, explicando 11,36% da variância. Isso sugere que, embora todos os domínios sejam importantes, as mudanças nos ciclos sono-vigília podem ter um padrão de progressão diferente das outras.

Validade Convergente: A CADES foi comparada com a escala CCDR (Canine Cognitive Dysfunction Rating scale), mostrando uma correlação significativa (r = 0,85, P < 0,001). Mais importante, a CADES demonstrou ser superior na detecção precoce do comprometimento cognitivo, identificando 29 cães como tendo Comprometimento Cognitivo Leve (MiCI) que a CCDR classificou como normais.

 

  • Estadiamento e Gravidade da Doença com CADES


Uma das contribuições mais importantes da CADES é sua capacidade de classificar a SDC em diferentes estágios de gravidade com base na pontuação total:

Envelhecimento Normal (NA): Pontuação de 0 a 7. Proprietários geralmente não notam mudanças aparentes no comportamento.

Comprometimento Cognitivo Leve (MiCI): Pontuação de 8 a 23. Proprietários podem identificar mudanças muito sutis após entrevista com o veterinário, como alterações na interação, redução da atividade diurna e aumento da atividade noturna, e raramente eliminação inadequada.

Comprometimento Cognitivo Moderado (MoCI): Pontuação de 24 a 44. Proprietários observam mudanças comportamentais claras, como eliminação inadequada ou hiperatividade noturna, e os cães requerem mais cuidados.

Disfunção Cognitiva Grave ou Demência Canina (CD): Pontuação de 45 a 95. Proprietários relatam mudanças comportamentais severas, com todos os quatro domínios afetados.

 

  • Progressão da SDC e Taxas de Conversão


O estudo analisou a sensibilidade dos domínios da CADES na progressão da SDC e as taxas de conversão entre os estágios:

Sensibilidade dos Domínios: Todos os quatro domínios da CADES são sensíveis o suficiente para refletir a transição entre os estágios (NA para MiCI, MiCI para MoCI, MoCI para CD). Curiosamente, o domínio C (ciclos sono-vigília) demonstrou sensibilidade limitada para diferenciar entre MoCI e CD, indicando que as mudanças nesse domínio podem estabilizar em estágios muito avançados da doença.

Variabilidade Fenotípica: O estudo identificou que a SDC tem várias manifestações. Em cães com MiCI, 40% apresentavam comprometimento no domínio B (interações sociais) e 12,5% no domínio C (ciclos sono-vigília). Para MoCI, 67% dos cães mostraram comprometimento nos domínios B e C. Em cães com SDC grave, a maioria (67%) apresentava comprometimento em todos os quatro domínios. Isso sugere que interações sociais e ciclos sono-vigília são os domínios mais frequentemente afetados.

Taxas de Conversão: A taxa de conversão de envelhecimento normal para comprometimento cognitivo leve (NA para MiCI) em 6 meses foi de 42%. Em 12 meses, essa taxa aumentou para 71,4%.

A taxa de conversão de comprometimento cognitivo leve para moderado (MiCI para MoCI) em 6 meses foi de 24%. Em 12 meses, essa taxa foi de 50%.

Comparando com humanos, onde a taxa de conversão de normal para Comprometimento Cognitivo Leve (MCI) é de 10-15% ao ano, os cães apresentam uma taxa de conversão cinco vezes maior. Os autores sugerem que isso pode ser explicado pela expectativa de vida cinco vezes mais curta dos cães.

Nenhum cão inicialmente classificado como cognitivamente normal progrediu para demência grave em um ano.

Essas descobertas reforçam que o MiCI em cães pode ser um forte preditor do desenvolvimento de uma SDC completa.

 

  • Discussão


A administração da CADES por veterinários em uma entrevista com o proprietário reduz a subjetividade inerente a métodos baseados em autoavaliação ou questionários online. A escala é rápida (leva cerca de 20-30 minutos para ser preenchida) e eficaz na detecção de estágios iniciais e avançados do comprometimento cognitivo.

A identificação dos domínios mais afetados em cada estágio (interações sociais e ciclos sono-vigília são os mais comprometidos em cães idosos) é crucial para entender a doença.

As descobertas da CADES podem pavimentar o caminho para uma medicina mais personalizada na SDC canina. Compreender os diferentes fenótipos da doença e suas progressões pode permitir o desenvolvimento de terapias mais direcionadas no futuro.

 

  • Conclusão


Em suma, o artigo apresenta a CAnine DEmentia Scale (CADES) como uma ferramenta robusta e validada para o rastreio e acompanhamento da Síndrome de Disfunção Cognitiva em cães e permite:

-Identificar e estagiar o comprometimento cognitivo em cães (envelhecimento normal, comprometimento leve, moderado e grave).

-Monitorar a progressão da doença ao longo do tempo com alta sensibilidade.

-Distinguir a SDC de outras condições.

-Servir como uma medida de eficácia para futuros tratamentos.

A SDC representa um transtorno comportamental multidomínio com rápida progressão em cães, e a CADES é uma ferramenta valiosa para entender e gerenciar essa condição.


 
 
 

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