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Conexão entre Nutrição e Oncologia em Cães e Gatos – Artigo de revisão.

  • Foto do escritor: jiulisalles
    jiulisalles
  • 13 de abr.
  • 4 min de leitura

1. O Paciente Oncológico e os Efeitos na Nutrição

O manejo nutricional de pacientes com câncer enfrenta desafios complexos, principalmente a inapetência e as mudanças metabólicas.

  • Inapetência (Perda de Apetite): É multifatorial, decorrente da própria doença ou de tratamentos. É mediada por citocinas inflamatórias como IL-1, IL-6 e TNF-α, que atuam no sistema nervoso central inibindo o apetite e aumentando a sensibilidade ao sabor amargo.

  • Mecanismos de Saciedade: O corpo possui mais mecanismos para interromper a alimentação do que para estimulá-la, envolvendo hormônios como leptina e colecistoquinina.

2. Desnutrição e Caquexia Neoplásica

A caquexia é uma síndrome grave caracterizada pela perda de massa muscular, afetando a qualidade de vida e a resposta ao tratamento.

  • Diferença do Jejum: Na caquexia, o corpo não consegue usar a gordura como fonte de energia principal devido à inflamação e hormônios de estresse (cortisol, glucagon), recorrendo à catabolização rápida das reservas musculares.

  • Efeito Warburg: Células tumorais reprogramam seu metabolismo para usar glicose via glicólise anaeróbica (mesmo com oxigênio disponível), o que produz apenas 2 ATPs e gera lactato. Isso resulta em um balanço energético negativo para o hospedeiro e um ambiente favorável ao tumor.

  • Prognóstico: Gatos com escore de condição corporal baixo apresentam sobrevida média de apenas 3,3 meses, comparado a 16,7 meses em gatos com escore ideal.

  • Diagnóstico: Avaliar apenas o peso é insuficiente; a perda de massa muscular é o marcador principal, sendo recomendada a avaliação frequente da condição corporal.

3. A Influência da Obesidade

A obesidade não é apenas excesso de gordura, mas um estado de inflamação crônica de baixo grau.

  • Câncer em Cães: A obesidade está associada ao carcinoma de células transicionais da bexiga, tumores de mastócitos e, principalmente, tumores de glândula mamária em fêmeas devido à produção excessiva de estrogênio pelo tecido adiposo.

  • Câncer em Gatos: O carcinoma mamário felino compartilha semelhanças moleculares com o câncer de mama humano e pode ser influenciado por mediadores da obesidade como leptina e adiponectina.

  • Microambiente Tumoral: A inflamação crônica do tecido adiposo cria um ambiente favorável para o crescimento e metástase de neoplasias.

4. Macronutrientes Fundamentais

Carboidratos e Índice Glicêmico

  • Uso e Evolução: Cães e gatos evoluíram para metabolizar carboidratos de forma eficaz.

  • Estratégia Nutricional: Recomenda-se o uso de carboidratos complexos com baixo índice glicêmico. Carboidratos simples podem estimular a insulina e o IGF-1, que promovem a proliferação celular e inibem a apoptose tumoral.

  • Dietas Cetogênicas: Embora reduzam o "combustível" do tumor, a ausência total de carboidratos pode causar deficiências nutricionais e aumentar o risco de perda de massa magra em pets.

Proteínas e Aminoácidos

  • Resistência Anabólica: Pacientes oncológicos precisam de maior ingestão proteica (aumento de pelo menos 40%) para superar a degradação muscular causada pelas citocinas.

  • Leucina e Lisina: Essenciais para a preservação da massa magra e redução do catabolismo.

  • Arginina: Atua como imunomodulador, melhorando a resposta dos linfócitos no combate a patógenos.

Gorduras e Ômega-3

  • Densidade Energética: Dietas com 25% a 40% de gordura (matéria seca) são ideais por fornecerem muitas calorias em baixo volume, o que auxilia animais inapetentes.

  • Ômega-3 (EPA e DHA): Possuem propriedades anti-inflamatórias, podendo inibir o crescimento tumoral e metástases. A proporção recomendada de Ômega-6:Ômega-3 é entre 1:1 e 0,5:1.

Fibras e Saúde Intestinal

  • A fermentação de fibras produz ácidos graxos de cadeia curta (como butirato), que protegem o cólon, regulam a imunidade e mantêm o pH intestinal ácido, prevenindo a formação de produtos tóxicos carcinogênicos. Recomenda-se entre 2,5% e 7,8% de fibra bruta na matéria seca.

5. Vitaminas e Minerais

  • Vitamina D: Níveis séricos baixos estão associados a maior mortalidade por câncer. Em cães, sugere-se uma concentração alvo de 110–120 ng/mL. Doses altas de calcitriol mostraram remissão em mastocitomas, mas com risco de toxicidade.

  • Zinco: Sua deficiência está ligada ao linfoma e osteossarcoma. O zinco auxilia na regulação da apoptose e tem efeitos antioxidantes.

  • Vitamina B12: Não há evidências de que a B12 alimente o câncer; sua suplementação é segura e recomendada para evitar deficiências, especialmente em dietas não convencionais.

  • Vitamina C e E / Selênio: Estudados por seu potencial antioxidante e citotoxicidade seletiva contra células tumorais, embora resultados em animais ainda necessitem de mais pesquisas para confirmar eficácia e doses seguras.


    • Concluindo as evidências apresentadas no artigo, a nutrição em pacientes oncológicos deve ser tratada como um pilar fundamental do tratamento, e não apenas um suporte secundário. O sucesso no manejo desses animais depende de uma abordagem que equilibre o controle da inflamação e a manutenção do estado nutricional.

    Os pontos centrais que definem essa conclusão são:

    • Identificação Precoce: É vital diagnosticar precocemente a caquexia e a perda de massa muscular, pois esses fatores estão diretamente ligados à redução da qualidade de vida, menor resposta ao tratamento e maior mortalidade.

    • Ajuste de Macronutrientes: A dieta ideal deve ser hiperproteica (pelo menos 40% acima da recomendação padrão) para superar a resistência anabólica e rica em gorduras saudáveis (25-40% na matéria seca), especialmente Ômega-3 (EPA e DHA), para modular a inflamação e fornecer energia concentrada.

    • Equilíbrio, não Privação: O artigo conclui que não é recomendável induzir deficiências nutricionais (como a retirada total de carboidratos ou de vitamina B12) em animais doentes, pois o sistema imunológico exige energia e nutrientes para funcionar. A estratégia correta é o uso de carboidratos complexos de baixo índice glicêmico.

    • Prevenção via Condição Corporal: A manutenção do peso ideal e a prevenção da obesidade são ferramentas cruciais de prevenção, visto que o tecido adiposo inflamado cria um microambiente favorável ao surgimento e progressão de tumores.

    • Necessidade de Pesquisas: Embora o uso de suplementos como Vitamina D, Zinco e Selênio seja promissor, ainda há necessidade de mais estudos clínicos específicos para cães e gatos para determinar doses seguras e eficazes.

    Em suma, o objetivo final da nutrição oncológica é "nutrir o hospedeiro e não o tumor", redirecionando o suporte metabólico para o animal enquanto se busca inibir os mecanismos de crescimento da neoplasia, garantindo assim maior sobrevida e bem-estar.


Link para acessa o artigo completo: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40046187/

 
 
 

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