Diretrizes Clínicas para o Diagnóstico e Estadiamento da Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina (CCDS)
- jiulisalles

- 15 de jun.
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1. Resumo Executivo
Estas diretrizes representam o primeiro esforço internacional padronizado do Grupo de Trabalho da CCDS para estabelecer critérios diagnósticos e de monitoramento rigorosos. O objetivo é superar a natureza insidiosa da demência canina, permitindo a detecção precoce em um cenário clínico onde sinais clínicos frequentemente se sobrepõem ao envelhecimento normal ou a comorbidades geriátricas.
As conclusões fundamentais para a prática clínica e pesquisa são:
Definição como Termo "Guarda-chuva": A CCDS é reconhecida como um termo abrangente para a demência canina. Embora compartilhe semelhanças fisiopatológicas com a Doença de Alzheimer (AD) humana, reconhece-se que múltiplos processos etiológicos e neurodegenerativos podem estar envolvidos.
Padronização DISHAA: A avaliação deve ser ancorada nos seis domínios comportamentais validados, com ênfase na progressão temporal dos sinais para refinar a suspeita diagnóstica.
Hierarquia Diagnóstica (Níveis 1 e 2): Estabelece-se uma distinção clara entre a certeza clínica (Nível 1) e a certeza por imagem e exclusão biológica (Nível 2), tornando a investigação avançada mandatória em casos de apresentação atípica.
2. Definição e Escopo da CCDS
A Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina é uma síndrome neurodegenerativa crônica, progressiva e associada à idade, caracterizada por déficits cognitivos graves o suficiente para impactar a funcionalidade diária.
Os sinais clínicos são categorizados pelo acrônimo DISHAA. É clinicamente relevante notar que a progressão costuma seguir um padrão: inquietação noturna e alterações na atividade social tendem a surgir precocemente, enquanto desorientação espacial e perda de higiene (sujar a casa) são tipicamente observadas com o avanço da gravidade da doença.
Os domínios DISHAA compreendem:
Desorientação: Perda de reconhecimento de pessoas, fixação em cantos ou erro no lado de abertura de portas.
Interação social: Alterações (aumento ou diminuição) na busca por atenção e interação com tutores ou outros animais.
Sono: Interrupção do ciclo sono-vigília, com vocalização ou deambulação noturna.
Higiene, Aprendizado e Memória: Perda de comportamentos previamente aprendidos, como o adestramento sanitário.
Atividade: Mudanças nos níveis de energia, incluindo atividades repetitivas/sem propósito ou apatia.
Ansiedade: Desenvolvimento de novos medos, fobias ou reações exageradas a estímulos.
3. Estadiamento da Gravidade da Doença
O estadiamento reflete o grau de incapacidade percebido pelo tutor e a necessidade de intervenções no manejo.
Estágio | Descrição Clínica | Impacto na Vida Diária |
Leve | Alterações sutis, de baixa frequência ou severidade. | O cão mantém funções normais; sinais são frequentemente negligenciados ou atribuídos apenas à idade. |
Moderado | Alterações comportamentais evidentes e mais frequentes. | Interferência nas atividades diárias; o tutor precisa realizar ajustes ativos no manejo e ambiente. |
Grave | Déficits debilitantes, óbvios e persistentes. | Comprometimento de funções básicas; exige suporte abrangente e monitoramento constante. |
4. Metodologia Diagnóstica: Nível 1 e Nível 2
O diagnóstico de CCDS permanece sendo um processo de exclusão sistemática.
Diagnóstico de Nível 1 (Certeza Clínica)
Baseia-se em um histórico progressivo confirmado por escalas validadas e na exclusão de causas sistêmicas.
Base de Dados Mínima: Hemograma, bioquímica sérica, urinálise e pressão arterial sistêmica.
Exame Neurológico: Tipicamente normal em estágios iniciais. Em casos moderados a graves, pode revelar sinais de disfunção difusa do prosencéfalo (ex: deambulação bidirecional). Crucial: O exame não deve apresentar sinais focais ou lateralizados.
Protocolo de Reavaliação: Se houver comorbidades (ex: dor ortopédica ou doença metabólica), estas devem ser tratadas primeiro. A reavaliação deve ocorrer em 2 a 4 semanas para condições agudas ou em 4 a 8 semanas para doenças crônicas. Se os sinais DISHAA resolverem após o tratamento, o paciente entra no "fluxo de saída" (não é CCDS).
Diagnóstico de Nível 2 (Certeza por Imagem)
Recomendado para aumentar a confiança diagnóstica e obrigatório se o paciente apresentar:
Sinais focais ou lateralizados (ex: inclinação de cabeça, andar em círculos unilateral).
Crises epilépticas de início recente. Nesses casos, a Ressonância Magnética (MRI) e a análise do Líquido Cefalorraquidiano (CSF) são essenciais para descartar neoplasias, infartos ou encefalites.
5. Achados de Imagem Avançada e Biomarcadores
Atrofia Cerebral e Mensuração da ITA
A redução do parênquima cerebral é o achado mais robusto na MRI.
Referência Técnica: Devem ser utilizadas sequências T1-weighted isovolumétricas 3D de alta resolução, especificamente MPRAGE ou BRAVO, que permitem reconstruções multiplanares precisas.
Adesão Intertalâmica (ITA): Embora valores de ITA < 5,0 mm sejam associados à CCDS, a altura da ITA é influenciada pelo porte e raça. Portanto, a altura da ITA deve ser expressa como uma razão em relação à altura cranial (medida no plano axial no mesmo nível) para normalizar o dado.
Outras Alterações e CSF
Micro-hemorragias Cerebrais: Identificadas como vazios de sinal em sequências de suscetibilidade magnética (T2*). Refletem a angiopatia amiloide cerebral comum em cães geriátricos.
Leucoaraiose: Hiperintensidades de substância branca em sequências T2/FLAIR, sugerindo doença de pequenos vasos.
Líquido Cefalorraquidiano (CSF): Deve ser estritamente normal (citologia e proteína). O papel do CSF no diagnóstico de CCDS é atuar como uma ferramenta de exclusão para mimetizadores inflamatórios ou neoplásicos.
Biomarcadores Emergentes
Neurofilamento de Cadeia Leve (NfL): Marcador de lesão neuronal; níveis plasmáticos aumentam com a idade, mas requerem cautela na interpretação devido à influência do peso corporal e função renal.
Beta-amiloide (Aβ): Razões de Aβ 42/40 em plasma e CSF são promissoras, mas ainda carecem de faixas de referência validadas para rotina clínica.
6. Bases Histopatológicas
O diagnóstico definitivo post-mortem revela um processo multifatorial:
Placas de Beta-amiloide (Aβ): Diferente dos humanos, as placas em cães são predominantemente difusas e menos fibrilares do que as placas neuríticas densas da Doença de Alzheimer.
Proteína Tau (pTau): A presença de emaranhados neurofibrilares de tau hiperfosforilada é inconsistente na espécie canina, sugerindo que a patogenia pode divergir da AD humana ou representar estágios mais precoces da doença.
Alterações Estruturais adicionais: Perda de mielina (notável no corpo caloso e lobos frontais), neuroinflamação (gliose reativa) e angiopatia amiloide cerebral vascular.
7. Recomendações para a Prática Clínica
O acompanhamento longitudinal é a chave para a intervenção terapêutica oportuna.
A partir dos 7 anos: Triagem anual obrigatória através de formulários de saúde para cães seniores.
A partir dos 10 anos: Aplicação da escala DISHAA a cada 6 meses para todos os pacientes. A variação no escore individual ao longo do tempo é mais informativa do que um escore absoluto único.
Manejo de Comorbidades: Nunca diagnosticar CCDS sem antes estabilizar condições que mimetizem sinais cognitivos. Respeite os períodos de reavaliação (2-4 ou 4-8 semanas) antes de confirmar a síndrome.
8. Referências e Glossário de Escalas
DISHAA: Ferramenta recomendada para a clínica geral por sua facilidade e por cobrir domínios críticos como ansiedade e sono, subestimados em outras escalas.
CADES (Canine Dementia Scale): Possui maior sensibilidade para detectar mudanças leves e iniciais, sendo útil em contextos onde o diagnóstico precoce é o foco principal.
CCDR (Canine Cognitive Dysfunction Rating scale): Escala robusta, valorizada por ser menos suscetível ao efeito placebo e apresentar alta estabilidade longitudinal, ideal para monitoramento de longo prazo em ensaios clínicos.
Para ter acesso ao artigo completo acesse: https://avmajournals.avma.org/view/journals/javma/264/4/javma.25.10.0668.xml




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