Este paciente é realmente (in)estável? Como descrever a dinâmica cardiovascular em pacientes críticos?
- jiulisalles

- 1 de ago. de 2025
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Neste artigo, intitulado "Is this patient really (un)stable? How to describe cardiovascular dynamics in critically ill patients", discute-se sobre a terminologia usada para descrever a condição cardiovascular de pacientes gravemente enfermos. O artigo, publicado em 2019 na revista Critical Care, levanta uma questão crucial sobre a precisão da linguagem médica, especialmente quando se trata de termos como "estável" e "instável" no contexto da unidade de terapia intensiva (UTI).
A Inadequação dos Termos "Estável" e "Instável" em Terapia Intensiva
O editorial se inicia com uma anedota de um plantão na UTI, onde dois residentes usam os termos "hemodinamicamente instável" e "hemodinamicamente estável" para descrever pacientes em cenários muito diferentes, o que os leva a refletir sobre o real significado e a adequação dessas palavras.
Embora os termos "estável" e "instável" sejam frequentemente utilizados, inclusive na literatura médica, eles são ambíguos e carecem de definições universalmente aceitas.
Mesmo que os sinais vitais de um paciente possam parecer estáveis sob suporte orgânico, ele continua sendo um paciente crítico, e sua condição fundamental é de instabilidade potencial ou real. A terminologia nesses casos precisa ser precisa, e o uso de termos descritivos vagos deve ser evitado. A classificação de um paciente como "estável" ou "instável" pode variar significativamente entre diferentes profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), dependendo de seu julgamento clínico, experiência e conhecimento do histórico do paciente. A Fig. 1 no artigo é mencionada como uma ilustração de cenários clínicos que demonstram esses problemas com o uso das palavras "estável" e "instável".

Exemplos do Mau Uso da Terminologia e Suas Consequências
O Caso do "Sr. S." (Paciente que se tornou "hemodinamicamente instável"):
O primeiro residente relatou que "o Sr. S. ficou hemodinamicamente instável, então tivemos que administrar norepinefrina". Os autores sugerem que, em vez de "instável", o termo mais apropriado seria que o paciente desenvolveu choque circulatório. Para descrever a dinâmica cardiovascular nesse e em casos semelhantes, devem ser utilizados critérios objetivos e mensuráveis, como a pressão arterial, o débito cardíaco e a taxa de infusão de vasopressores ou inotrópicos. Isso proporciona uma descrição muito mais útil e acionável da condição do paciente.
O Caso do Paciente com SARA e em Terapia Renal Substitutiva (Descrito como "hemodinamicamente estável"):
O segundo residente descreveu um paciente com síndrome do desconforto respiratório agudo (SARA), que estava em terapia renal substitutiva há 36 horas, como "hemodinamicamente estável sob 1 μg/kg/min de norepinefrina". Este exemplo é particularmente problemático. O artigo aponta que o problema aqui reside mais na interpretação do termo "estável" do que na sua definição. Embora o termo "estável" geralmente tenha conotações positivas, seu uso em pacientes criticamente enfermos pode criar uma falsa sensação de segurança para a equipe de atendimento.
Quando a equipe começa a aceitar o estado crítico do paciente como "normal", pode haver uma diminuição nos esforços para resolver a condição subjacente grave. Além disso, o uso do termo "estável" pode levar a mal-entendidos significativos com os familiares dos pacientes. Se uma enfermeira diz aos familiares ansiosos que "a situação está estável", eles podem ter a impressão de que seu ente querido não está piorando e, portanto, nutrir esperanças de recuperação. No entanto, sem uma explicação mais detalhada, os familiares podem não compreender que, em condições críticas, "estar estável" pode significar que o paciente não está melhorando, e suas chances de um resultado positivo podem estar, na verdade, piorando, já que a duração do choque é um fator prognóstico importante.
Recomendações para uma Descrição Precisa
Diante dessas considerações, os autores defendem a necessidade de abandonar o uso dos termos "estável" e "instável" na descrição da dinâmica cardiovascular em pacientes críticos. Eles enfatizam a importância da clareza e da precisão na comunicação entre colegas, com os pacientes e, fundamentalmente, com as famílias.
A principal recomendação é substituir esses termos vagos por critérios objetivos e quantificáveis. A instabilidade hemodinâmica, por exemplo, deve ser descrita usando parâmetros como:
-Pressão arterial: Valores específicos de pressão arterial sistólica, diastólica ou média.
-Débito cardíaco: Medidas do débito cardíaco.
-Dose de vasopressores ou inotrópicos: As doses e a taxa de infusão desses medicamentos, que refletem a necessidade de suporte cardiovascular.
Conclusão
Em suma, o editorial é um apelo à precisão na linguagem médica, especialmente em ambientes de alta complexidade como a UTI. Ele argumenta que o uso de termos vagos como "estável" e "instável" pode levar a mal-entendidos clínicos, falsas expectativas por parte das famílias e, em última instância, comprometer a qualidade do cuidado ao paciente. A solução proposta é a adoção de descrições baseadas em dados objetivos e mensuráveis, que realmente reflitam a complexidade da condição cardiovascular dos pacientes críticos.
Para acessar o artigo: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6683448/




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