Eutanasia na Perspectiva da Família
- jiulisalles

- 31 de ago. de 2025
- 8 min de leitura
Este estudo buscou entender quais variáveis demográficas, de interação humano-animal e psicossociais gerais estão por trás do processo de tomada de decisão dos tutores em relação à eutanásia de seus animais envelhecidos ou gravemente doentes. A pesquisa focou mais na experiência do luto após a perda do animal, mas este trabalho se propôs a investigar os elementos que influenciam a decisão enquanto o animal ainda vive.
Contexto e Importância do Estudo
O avanço da medicina veterinária tem possibilitado prolongar a vida dos pets, o que, por sua vez, torna as decisões de fim de vida mais complexas. As diretrizes da Associação Médica Veterinária Americana (AVMA) sugerem um equilíbrio entre o bem-estar animal e as considerações do tutor. O veterinário atua como educador e conselheiro, mas pesquisas anteriores mostraram que nem sempre os veterinários empoderam o tutor na tomada de decisões ou exploram suficientemente seus sentimentos. O presente estudo preenche uma lacuna ao investigar os fatores dos tutores em tempo real, ou seja, enquanto o animal está doente, mas ainda vivo, para entender melhor as contribuições para o processo de decisão da eutanásia.
Materiais e Métodos
O estudo foi realizado em duas etapas, seguindo os critérios STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology).
Participantes:
Etapa 1: Contou com 30 tutores que buscaram serviços de hospice, cuidados paliativos e eutanásia domiciliar para pets. Os participantes deveriam ter pelo menos 18 anos, compreender inglês, residir com um cão ou gato paciente do serviço e concordar em permitir a extração de dados sobre a data de óbito do pet.
Etapa 2: Recrutou 345 participantes através de mídias sociais (seguidores de veterinários de hospice e serviços de eutanásia domiciliar). Os critérios de inclusão eram semelhantes: 18 anos ou mais, compreensão de inglês e possuir um cão ou gato idoso, terminal ou cronicamente doente.
Medidas (Instrumentos de Avaliação):
-Medida de Desfecho Primária (Escala COE - Consideration of Euthanasia): Foi desenvolvida para este estudo. Originalmente com oito itens, mas dois foram removidos para melhorar a consistência interna, resultando em uma escala final de seis itens. A escala quantifica os passos que o tutor tomou em direção à decisão da eutanásia, com pontuações mais altas indicando mais passos tomados (Apêndice 1).

-Medidas Preditivas: Selecionadas por sua brevidade e propriedades psicométricas robustas.
-Qualidade de Vida do Animal: Utilizou escalas específicas para felinos (Feline Quality of Life Scale - FQLS, 16 itens) e caninos (Canine Health Quality of Life Scale - CHQLS, 15 itens). As pontuações foram padronizadas.
Interação Humano-Animal: Apego: Avaliado pela Lexington Attachment to Pet Scale (LAPS, 23 itens), incluindo subescalas de apego geral, direitos dos animais e substituição de pessoa.
-Luto Antecipatório: Mensurado pela Caregiver Grief Scale (CGS, 11 itens), adaptada para este estudo, focando na experiência de perda antecipada. Inclui escalas de dor emocional, perda relacional, perda absoluta e aceitação.
-Carga do Cuidador (Caregiver Burden): Avaliada pelo Zarit Burden Interview (ZBI, 18 itens), adaptado para tutores de animais. Considera três fatores: tensão geral, desconforto afetivo/relacional e culpa/incerteza.
-Medidas Psicossociais Gerais: Estresse: Medido pela Perceived Stress Scale (PSS, 10 itens).
-Qualidade de Vida: Mensurada pela Quality of Life Enjoyment and Satisfaction Questionnaire-Short Form (Q-LES-Q-SF, 16 itens).
-Sintomas de Depressão: Avaliados pela Center for Epidemiology Studies Depression scale (CES-D, 20 itens).
-Variáveis Demográficas: Idade do participante e do animal, gênero do participante e espécie do animal, e renda anual.
-Procedimento: Os protocolos do estudo foram aprovados pelo Comitê de Revisão Institucional da Kent State University. Os dados da etapa 1 foram coletados de março a julho de 2019, e da etapa 2 em abril de 2019. Após o consentimento, os participantes preencheram os questionários online.
Resultados
Os resultados detalhados foram apresentados em duas fases, correspondendo às etapas do estudo.
Etapa 1: Desenvolvimento e Validação da Escala COE
De 45 respostas, 30 forneceram dados completos.
Dois itens da escala COE original ("Eu nunca consideraria a eutanásia para qualquer animal" e "Eu consideraria a eutanásia para um animal sob certas circunstâncias") foram removidos porque diminuíam a confiabilidade da escala. Isso ocorreu porque quase todos os participantes já estavam dispostos a considerar a eutanásia, dada a natureza do serviço que buscavam.
A escala COE final de 6 itens demonstrou boa consistência interna (Alfa de Cronbach = 0.77).
Uma correlação positiva e significativa (rs = 0.70) foi encontrada entre a pontuação da escala COE e a eutanásia do animal nos 30 dias seguintes à conclusão da escala. Isso sugere que a escala COE é uma medida válida dos passos tomados pelos tutores em direção à decisão de eutanásia.
Etapa 2: Preditores da Consideração de Eutanásia
De 483 respostas, 345 foram consideradas para análise após exclusões por dados incompletos ou inadequados.
Correlações Iniciais: Várias variáveis mostraram correlações significativas com a escala COE: renda, carga do cuidador, luto antecipatório, depressão e estresse.
Tensão Geral (fator de carga do cuidador): r = 0.25, p < .001
Desconforto Afetivo/Relacional (fator de carga do cuidador): r = 0.20, p < .001
Culpa/Incerteza (fator de carga do cuidador): r = 0.31, p < .001
Luto Antecipatório: r = 0.22, p < .001
Depressão: r = 0.20, p < .001
Estresse Percebido: r = 0.15, p = .01
Renda: r = 0.19, p < .001
Regressão Linear Hierárquica: Esta análise identificou os preditores mais fortes após controlar outras variáveis.
-Primeiro passo: A qualidade de vida do animal de companhia foi o preditor mais significativo, explicando 18% da variância na consideração de eutanásia (R² = 0.18, F(1, 343) = 75.33, P<.001). A idade e a espécie do animal não contribuíram significativamente e foram removidas do modelo.
-Segundo passo: A carga do cuidador (caregiver burden) emergiu como o segundo preditor mais significativo, explicando um adicional de 4% da variância (R² = 0.22; ΔR² = 0.04, F (1, 342) = 17.28, P<.001). Uma análise post-hoc revelou que todos os três fatores da carga do cuidador (tensão geral, desconforto afetivo/relacional e culpa/incerteza) correlacionaram-se significativamente com a escala COE.
-Terceiro passo: A renda do tutor explicou um adicional de 3% da variância na consideração de eutanásia (R² = 0.24; ΔR² = 0.03, F (1, 341) = 11.42, P = .001).
-Outras variáveis: Nenhuma outra variável (idade ou gênero do tutor, apego ao animal, luto antecipatório, ou variáveis psicossociais como depressão, estresse ou qualidade de vida) contribuiu significativamente para a pontuação da escala COE após a inclusão da qualidade de vida do animal, carga do cuidador e renda.
Discussão
Os autores discutem a importância dos achados, principalmente em relação à escala COE, à carga do cuidador e à renda.
Escala de Consideração de Eutanásia (COE): Este é o primeiro estudo, que os autores têm conhecimento, a tentar quantificar os passos tomados em direção à eutanásia enquanto a decisão está sendo tomada. A forte correlação da escala COE com a eutanásia real nos 30 dias seguintes valida sua utilidade como um indicador do estágio do tutor no processo de decisão. É importante notar que a amostra da Etapa 1 foi de tutores que já estavam buscando ativamente serviços de fim de vida, o que pode ter influenciado a resposta em alguns itens da escala. Os autores sugerem que esses itens removidos sejam reexaminados em futuras pesquisas com amostras mais variadas.
Quais Fatores do Tutor Predizem a Consideração de Eutanásia?
Após controlar pela qualidade de vida do animal, a carga do cuidador e a renda foram os únicos fatores do tutor que permaneceram como preditores significativos da consideração de eutanásia.
Carga do Cuidador: A carga do cuidador foi o preditor mais forte da consideração de eutanásia, além da qualidade de vida do animal. Este achado está alinhado com a literatura em cuidados humanos, onde a carga do cuidador está fortemente ligada ao desejo de institucionalizar um membro da família com demência.
Os três fatores da carga do cuidador (tensão geral, desconforto afetivo/relacional e culpa/incerteza) foram significativamente relacionados à consideração de eutanásia. Isso significa que não é apenas o estresse do cuidado diário, mas também as respostas emocionais, incluindo a culpa, que desempenham um papel. A culpa pode ser experienciada tanto pela consideração da eutanásia quanto por uma culpa geral de cuidador. A importância da carga do cuidador é tão significativa que pode ser um fator primário na "eutanásia precoce", ou seja, antes que a qualidade de vida do animal sugira que seja absolutamente necessário.
Renda do Tutor: Após a qualidade de vida do animal e a carga do cuidador, a renda familiar foi o próximo preditor mais forte. Curiosamente, o estudo mostrou uma relação positiva entre renda e consideração de eutanásia, ou seja, maior renda previu maior consideração de eutanásia. Isso contrasta com a intuição de que a menor renda poderia levar à eutanásia devido à incapacidade de arcar com os tratamentos. Os autores sugerem que isso pode ser um produto das características demográficas da amostra (renda média de US$ 50.000 a US$ 100.000). Indivíduos com maiores recursos socioeconômicos podem ver a eutanásia de uma forma diferente. Eles podem ter melhor acesso à informação sobre a condição de seu animal e, portanto, uma compreensão mais profunda da inevitabilidade do declínio de seu pet.
Implicações para o Veterinário:
Os resultados destacam a importância de os veterinários compreenderem a experiência do tutor ao cuidar de um animal idoso ou doente.
Reconhecimento da Carga do Cuidador: Quando um tutor se sente sobrecarregado, é crucial validar sua experiência.
-Avaliação Rotineira: A avaliação rotineira da carga do cuidador pode ser benéfica, seja por meio de conversas abertas ou do uso de ferramentas de avaliação abreviadas. Isso facilita a discussão sobre como equilibrar a condição do animal com os recursos do tutor (financeiros, físicos, emocionais, de tempo).
-Redução da Carga: Indivíduos com carga elevada podem ser encaminhados a profissionais de saúde mental (como assistentes sociais veterinários). Educar os tutores sobre problemas comuns e soluções também pode reduzir a reatividade e aumentar a sensação de capacidade.
-Consciência Financeira: Os veterinários devem ser conscientes do grau em que o tutor possui recursos para explorar questões de carga do cuidador e/ou tratar o animal de companhia, sem julgamento.
Limitações e Direções Futuras:
-Viés da Amostra: As amostras foram recrutadas de populações que já estavam interessadas ou buscando ativamente serviços especializados de fim de vida (hospice, paliativos, eutanásia domiciliar). Isso pode ter levado a um viés, com participantes potencialmente tendo maior renda ou um apego mais forte aos seus animais do que a população geral.
-Desenho Transversal: O estudo é transversal, o que significa que não pode estabelecer causalidade definitiva.
-Demografia Específica: A amostra era predominantemente feminina, e o foco foi apenas em cães e gatos. Não foram capturados pontos de vista culturais ou religiosos.
Conhecimento do Tutor: O estudo não avaliou o conhecimento do tutor sobre a doença do animal, o que poderia ser um fator contribuinte importante.
Sugestões para Pesquisas Futuras:
Replicar o estudo em amostras mais diversas, incluindo diferentes tipos de clínicas (prática geral, clínicas de baixa renda).
Conduzir validação psicométrica completa da escala COE, incluindo validade concorrente, discriminante e confiabilidade teste-reteste.
Investigar a contribuição do conhecimento do tutor sobre a condição de seu animal.
Incorporar participantes de diversas origens culturais e religiosas para entender como essas crenças impactam as visões sobre a eutanásia.
Resumo Final
Em síntese, o estudo desenvolveu e validou a escala COE como uma medida eficaz dos passos que os tutores dão em direção à decisão de eutanásia para seus animais. Os resultados demonstraram que, além da qualidade de vida do animal, a carga do cuidador e a renda do tutor são os principais preditores dessa decisão. A carga do cuidador, incluindo tensão, desconforto emocional e culpa, é um fator crucial, enquanto a renda mais alta está inesperadamente ligada a uma maior consideração da eutanásia, possivelmente devido a uma maior compreensão da condição do animal. O estudo ressalta a necessidade de os veterinários reconhecerem e abordarem a carga do cuidador, bem como as questões financeiras, para apoiar melhor os tutores durante o difícil processo de tomada de decisão de fim de vida.
Para acessar o estudo: https://www.vetsmall.theclinics.com/article/S0195-5616(19)30182-2/fulltext




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