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Luto Antecipatório, Sobrecarga e Qualidade de Vida do Cuidador do Animal

  • Foto do escritor: jiulisalles
    jiulisalles
  • 25 de jun. de 2025
  • 6 min de leitura

O artigo "Owner quality of life, caregiver burden and anticipatory grief: How they differ, why it matters" (DOi, publicado no Vet Rec. em 2021, explora em profundidade a experiência de tutores de animais idosos ou gravemente enfermos. O objetivo principal do estudo foi entender como o luto antecipatório (LA), a sobrecarga do cuidador (SC) e a qualidade de vida (QV) do tutor se relacionam e diferem, e como essas compreensões podem melhorar a comunicação veterinária.

Introdução

O artigo começa destacando a crescente atenção às experiências dos clientes na medicina veterinária, especialmente durante visitas problemáticas. A capacidade do veterinário de compreender a perspectiva do cliente é crucial para uma comunicação eficaz.

Historicamente, o luto, incluindo o luto antecipatório, tem sido estudado em relação à perda de animais de companhia. O LA é definido como uma resposta de luto que ocorre antes da perda real, caracterizada por reações emocionais como tristeza, raiva e desesperança. Coexistindo com o LA, pode haver a sobrecarga do cuidador (SC), que é uma reação às dificuldades de cuidar de um ente querido doente, envolvendo demandas objetivas (tempo, demandas físicas) e experiências emocionais subjetivas (frustração, culpa). Finalmente, a qualidade de vida (QV) do tutor, definida como o "grau de satisfação" da vida em múltiplos domínios (físico, psicológico, financeiro, social), também tem sido um foco de pesquisa.

O ponto central da pesquisa é que, embora esses três conceitos (LA, SC e QV) sejam reconhecidamente correlacionados no contexto veterinário, a maioria dos estudos anteriores focou em apenas um ou dois deles, sem distingui-los claramente ou examiná-los simultaneamente. O presente estudo, então, busca preencher essa lacuna, explorando a sobreposição e distinção desses construtos.

Os objetivos do estudo foram:

  1. Explorar as medidas de SC, LA e QV em tutores de animais de companhia idosos ou gravemente enfermos para determinar a extensão em que esses construtos se sobrepõem.

  2. Determinar se os tutores exibem "perfis" específicos relevantes a essas questões.

  3. Demonstrar se esses grupos apresentam diferenças de maneira que possam informar estratégias de comunicação para veterinários.

    Materiais e Métodos

    O estudo foi transversal e envolveu 393 tutores de cães ou gatos idosos ou cronicamente/terminalmente doentes. Os participantes foram recrutados online via mídias sociais de um veterinário de Hospice e um serviço nacional de eutanásia em domicílio nos Estados Unidos.


    Para medir os principais construtos, foram utilizadas as seguintes escalas:

    Luto Antecipatório (LA): Escala de Luto do Cuidador (Caregiver Grief Scale - CGS), uma adaptação de 10 itens.

    Sobrecarga do Cuidador (SC): Uma adaptação de 18 itens da Entrevista de Sobrecarga de Zarit (Zarit Burden Interview - ZBI). O artigo menciona que uma pontuação de 18 na ZBI pode indicar SC clinicamente significativa.

    Qualidade de Vida (QV): Questionário Curto de Satisfação e Prazer da Qualidade de Vida (Quality of Life Enjoyment and Satisfaction Questionnaire-Short Form - Q-LES-Q-SF), com 13 itens.

Além disso, foram coletadas medidas secundárias para caracterizar os grupos identificados:

  • Natureza da doença do animal: Classificada como "crônica" (duração >3 meses, incurável mas sem limitar expectativa de vida) ou "terminal" (doença progressiva, incurável, limitando expectativa de vida)

  • QV do animal: Medidas específicas para cães (CHQLS) e gatos (FQLS) foram padronizadas.

  • Consideração da eutanásia (CE): Escala de Consideração da Eutanásia (Consideration of Euthanasia scale - COE), de 6 itens, medindo passos tomados em direção à decisão de eutanásia.

  • Apego ao animal: Escala de Apego a Animais de Estimação de Lexington (Lexington Attachment to Pet Scale - LAPS), de 23 itens.

  • Estresse: Escala de Estresse Percebido (Perceived Stress Scale - PSS), de 10 itens.

  • Depressão: Escala de Depressão do Centro de Estudos Epidemiológicos (Center for Epidemiology Studies Depression scale - CES-D), de 20 itens, com uma pontuação de 16 ou mais indicando sintomas clinicamente significativos.

As análises estatísticas incluíram:

  • Análise Fatorial Exploratória: Para determinar o grau de distinção entre CGS, ZBI e Q-LES-Q-SF.

  • Análise de Cluster: Para identificar perfis de tutores com base nas pontuações de LA, SC e QV.

  • Comparações de Grupo: Usando ANOVA para medidas contínuas e qui-quadrado para medidas categóricas para avaliar diferenças entre os perfis identificados.


Resultados

A análise fatorial exploratória, demonstrou que as medidas de sobrecarga do cuidador, luto antecipatório e qualidade de vida do tutor refletem construtos distintos.

A análise de cluster, utilizando os escores CGS, ZBI e Q-LES-Q-SF, revelou a existência de quatro perfis de tutores:

Grupo 1: "Angustiados" (Distressed) (n = 90)

Grupo 2: "Resilientes" (Resilient) (n = 104)

Grupo 3: "Não-Angustiados" (Non-distressed) (n = 95)

Grupo 4: "Outras Influências" (Other influences) (n = 104)

As comparações entre os grupos, mostraram as seguintes características distintas para cada perfil:

  •  Grupo 1: Angustiados  

-LA, SC, QV: Relataram o LA mais alto, a SC mais alta e a QV mais baixa entre todos os grupos.

 -Saúde Mental: Apresentaram os maiores sintomas depressivos (CES-D) e os maiores níveis de estresse (PSS), com pontuações acima dos limiares clinicamente significativos.

-Animal: Perceberam a QV de seus animais como a mais baixa e tomaram mais passos em direção à eutanásia em comparação com os grupos 3 e 4.

  • Grupo 2: Resilientes

    -LA, SC, QV: Relataram o segundo maior nível de SC e LA, mas, significativamente, uma QV muito melhor em comparação com o grupo Angustiados.

    -Saúde Mental: Mostraram apenas sintomas limítrofes de depressão e estresse, diferentemente das elevações observadas nos tutores Angustiados.

    -Animal: Não diferiram dos Angustiados na percepção da QV de seus animais ou na consideração da eutanásia, sugerindo que, embora sintam o fardo e o luto, conseguem compartimentalizar essa angústia para que não permeie outras áreas da vida.

  • Grupo 3: Não-Angustiados

    -LA, SC, QV: Apresentaram a SC mais baixa (abaixo do limiar clinicamente significativo), o LA mais baixo e a QV mais alta.

    -Saúde Mental: Relataram os níveis mais baixos de depressão e estresse.

    -Animal: Os animais desses tutores eram mais propensos a ter uma doença crônica (em vez de terminal) e uma QV percebida mais alta.

    -Apego: Notavelmente, este grupo exibiu os níveis mais baixos de apego aos seus animais de companhia.

  • Grupo 4: Outras Influências

    -LA, SC, QV: Apresentaram angústia geral, com a segunda menor QV, mas a SC e o LA eram menores do que nos grupos Angustiados e Resilientes.

    -Saúde Mental: Mostraram elevações significativas de depressão e estresse, sugerindo que sua angústia emocional estava relacionada a fatores externos, não primariamente à condição do animal.

    -Animal: Tinham tomado menos passos em direção à eutanásia e relataram que seus animais tinham uma QV melhor em comparação com o grupo Angustiados.

Discussão

O estudo enfatiza que a demonstração de que LA, SC e QV são construtos distintos não é apenas acadêmica; é praticamente relevante para os clínicos veterinários. Entender essas distinções permite que os profissionais respondam de forma mais apropriada ao cliente. Por exemplo, um cliente com SC saliente pode se beneficiar de uma resolução de problemas colaborativa, enquanto um focado no LA pode precisar de expressões de empatia. A falha em identificar a experiência predominante do cliente pode levar a falhas de comunicação.

O artigo aprofunda as implicações de cada perfil para as interações veterinárias:

  • Tutores Angustiados (G1): A angústia do animal permeia toda a sua vida. Eles estão experimentando uma turbulência emocional substancial e pervasiva enquanto navegam por questões de fim de vida. Esses clientes podem parecer mais dependentes ou propensos a reclamar, exigindo dos veterinários mais tempo e a capacidade de estabelecer limites de maneira gentil.

  • Tutores Resilientes (G2): Embora sintam SC e LA significativos, conseguem compartimentalizar essa angústia. Eles podem não parecer obviamente angustiados, e o veterinário pode precisar perguntar proativamente sobre suas preocupações e focar na resolução de problemas ativa e colaborativa.

  • Tutores Não-Angustiados (G3): Parecem relativamente inafetados pelos problemas de seus animais. Devido a um apego menor, podem apresentar maior não-aderência ao tratamento. Para esses, é fundamental fornecer justificativas claras para os tratamentos e garantir que eles se encaixem nos parâmetros econômicos e de estilo de vida do cliente, especialmente considerando que doenças crônicas são mais comuns neste grupo.

  • Tutores por "Outras Influências" (G4): Sua angústia emocional está mais relacionada a fatores externos do que à condição do animal. O cuidado com o animal pode ter uma prioridade mais baixa para eles. Perguntar se o cliente está passando por outros estressores importantes e, se sim, focar em atender às necessidades do animal da forma mais pragmática possível, pode ser útil.


    Limitações e Direções Futuras

    O artigo reconhece algumas limitações importantes do estudo:

  •  Amostra: O recrutamento online visava tutores interessados em serviços especializados de fim de vida, o que pode ter gerado uma amostra com maior renda e apego aos animais do que a população geral.

  • Viés de Gênero: A maioria dos participantes era feminina, o que limitou as comparações de gênero.

  • Animais Estudados: O foco exclusivo em cães e gatos significa que os resultados podem não ser generalizáveis para outros animais de companhia.


Para direções futuras, o estudo sugere investigar:

  • Tendências de posse de animais: Notou-se que cerca de 75% dos tutores Angustiados e Resilientes tinham cães, em comparação com 60% dos Não-Angustiados e Outras Influências.

  • Outros preditores psicológicos: Como personalidade e estratégias de enfrentamento.

  • Transferência de carga (Burden Transfer): A relação entre a angústia do cliente e o estresse/esgotamento dos veterinários, buscando identificar quais subgrupos de tutores são mais propensos a causar essa "transferência de carga".


Em suma, o artigo "Owner quality of life, caregiver burden and anticipatory grief: How they differ, why it matters" é um estudo fundamental que esclarece a complexidade das experiências de tutores de animais doentes. Ele oferece uma estrutura para os veterinários entenderem e responderem às necessidades emocionais de seus clientes, distinguindo entre luto antecipatório, sobrecarga do cuidador e impacto na qualidade de vida do tutor. Ao identificar quatro perfis distintos de proprietários, o estudo sugere estratégias de comunicação personalizadas que podem levar a um melhor suporte ao cliente e, consequentemente, a melhores resultados para os animais.


 
 
 

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