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Prevalência de sinais comportamentais comumente associados à síndrome de hiperestesia felina em gatos saudáveis

  • Foto do escritor: jiulisalles
    jiulisalles
  • 11 de jul. de 2025
  • 8 min de leitura

O artigo de hoje, intitulado "Prevalence of behavioural signs commonly associated with feline hyperaesthesia syndrome among healthy cats", de M. Avril et al., é um complemento do estudo comentado ontem, aqui neste blog, sobre Hiperestesia felina.

  • Objetivo

O principal objetivo deste estudo foi determinar a prevalência de sinais comportamentais comumente associados à Síndrome de Hiperestesia Felina (SHF) em uma população de gatos considerados saudáveis. A pesquisa partiu da hipótese de que esses sinais podem ser observados por tutores de gatos saudáveis, mas não são frequentemente relatados porque os tutores podem considerar esses comportamentos como normais ou sem impacto no bem-estar do animal.

  • O que é Síndrome de Hiperestesia Felina (SHF)?

A hiperestesia é definida como uma percepção exagerada a um estímulo tátil. A SHF, por sua vez, é um distúrbio ainda pouco compreendido, caracterizado pela presença de sinais comportamentais de hiperestesia lombar e da cauda. Um sinal clínico muito relevante é a presença de fasciculações cutâneas dorsais toracolombares, que são contrações do músculo cutâneo do tronco, o que levou a SHF a ser também chamada de "síndrome da pele ondulante" (rolling skin syndrome).

  • Os sinais comportamentais associados à SHF são diversos e podem ser intermitentes, variando em gravidade, e incluem:

 -Lambedura ou mordedura da pele nas costas, flancos ou cauda, podendo chegar à automutilação.

-Gatos podem parecer agitados, vocalizar sem causa aparente, exibir movimentos frenéticos da cauda, correr de forma errática e apresentar midríase (pupilas dilatadas).

-Em alguns casos, podem demonstrar agressão a outros gatos e pessoas.

-Comportamentos específicos: Tuttle (1980) descreveu comportamentos que se assemelham ao cio, com o gato deitando e levantando a região lombar, embora o estudo atual sugira que essa não é a única interpretação.

-Idade e Raça: A SHF parece afetar gatos relativamente jovens, entre 1 e 5 anos, e algumas raças como Burmese, Abissínio, Himalaio e Siamês podem estar super-representadas, embora qualquer raça possa ser afetada. Não foi identificada predisposição sexual.

-Fatores Ambientais: Condições ambientais inadequadas, como falta de estimulação ou frustração (por exemplo, dificuldades no acesso a comida, água, esconderijos ou locais de exploração), podem influenciar o distúrbio.

-Outras Condições: É crucial descartar outras condições ortopédicas, neurológicas ou dermatológicas que possam apresentar sinais semelhantes, já que esses comportamentos também podem ser observados em gatos saudáveis, frustrados, excitados ou que simplesmente não toleram a palpação lombar e da cauda.

  • Tratamento

O tratamento da SHF é multimodal. Ajustes ambientais para atender às necessidades do gato e enriquecimento ambiental devem ser priorizados. Se fatores ambientais e causas dermatológicas forem excluídos, pode-se considerar a medicação para dor neuropática, como Gabapentina e Topiramato.

  • Materiais e Métodos

Este foi um estudo descritivo, transversal, bicêntrico e prospectivo, conduzido entre outubro de 2020 e maio de 2022 em dois hospitais veterinários. Seis veterinários clínicos gerais participaram da coleta de dados.

  • Critérios de Inclusão

Gatos adultos (com mais de 1 ano de idade).

Gatos tratados contra ectoparasitas com medicamentos licenciados.

Gatos que apresentaram para vacinação.

Gatos com exame físico normal.

Gatos considerados saudáveis e com comportamento normal pelos seus tutores.

  • Critérios de Exclusão

Presença de doenças crônicas.

Diagnóstico prévio ou atual de SHF.

Presença de ectoparasitas.

Administração crônica ou ocasional de medicamentos.

  • Coleta de Dados

Um total de 208 gatos saudáveis foram incluídos.

 

Foi aplicada uma pesquisa sobre o comportamento dos gatos, dividida em duas partes:

 1.  Parte para os tutores: Preenchida no início da consulta, sem que os tutores soubessem o objetivo do estudo. Avaliou o comportamento dos gatos em casa e suas reações ao serem acariciados na coluna vertebral. Perguntas incluíam a ocorrência regular (pelo menos uma vez por semana) de nove sinais comportamentais associados à SHF (pele ondulante, aumento da atividade motora, alucinações, mudanças comportamentais súbitas, lambidas/mordidas em cauda/flancos/região anal/lombar, vocalizações, movimento frenético da cauda, pupilas dilatadas, deitar e levantar a região lombar). Também questionava sobre o acesso do gato ao ambiente externo (apenas interno, acesso restrito ou livre).

 2.  Parte para os veterinários: Preenchida após o exame do gato. Descrevia o comportamento do gato durante a consulta antes da palpação lombar e a reação do gato à palpação lombar. Os veterinários estavam cegos para as respostas dos tutores.

  • Análise de Dados

Foi realizada uma análise descritiva dos dados.

Sete análises univariadas foram realizadas para investigar associações entre diferentes variáveis, como acesso ao ambiente externo, comportamento durante a consulta, reações à palpação lombar e ao carinho na coluna vertebral, raça, sexo e idade, com a presença de sinais comportamentais de SHF em casa.

  • Resultados Principais

 -População do Estudo:

Dos 1022 gatos avaliados para visitas de bem-estar, 208 atenderam aos critérios de elegibilidade e foram incluídos.

A maioria dos gatos eram fêmeas (52,9%) e machos (47,1%), sendo a maioria gatos domésticos de pelo curto ( 66,3%).

A idade média foi de 5,3 anos (mediana 5, variando de 1 a 17 anos).

Não foi encontrada associação aparente entre raça (P = 0,64), sexo (P = 0,86) ou idade (P = 0,06) e a presença de sinais comportamentais de FHS em casa.

Prevalência de Sinais Comportamentais de FHS

De maneira impressionante 73,1% dos gatos (152 de 208) exibiram pelo menos um dos nove sinais comportamentais de SHF descritos no estudo em seu ambiente doméstico.

Apenas 26,9% dos tutores relataram não observar nenhum sinal comportamental de SHF.


-Episódios de saltos e corridas descontroladas: 59,1% (123 gatos)

-Lambedura ou mordedura da cauda, flancos, região anal ou lombar: 20,2% (42 gatos)

-Deitar e levantar a região lombar: 18,8% (39 gatos)

-Pele ondulante ("rolling skin"): 18,8% (39 gatos)

-Mudanças comportamentais súbitas: 15,9% (33 gatos)

- “Alucinações" (relatadas por tutores): 14,9% (31 gatos)

-Midríase (pupilas dilatadas): 14,4% (30 gatos)

-Movimento frenético da cauda: 14,4% (30 gatos)

-Vocalizações sem motivo aparente: 11,1% (23 gatos)

 Muitos gatos exibiram múltiplos sinais: 27,4% exibiram um sinal, 16,8% dois sinais, 12% quatro sinais, e assim por diante. Notavelmente, entre os 39 gatos que deitavam e levantavam a região lombar, todos exibiam pelo menos um sinal comportamental adicional.

Acesso ao Ambiente Externo:

Gatos que viviam apenas em ambientes internos eram mais propensos a apresentar pelo menos um sinal de SHF (80%) em comparação com gatos com acesso ao exterior (65,3%).

Esta diferença foi estatisticamente significativa (P = 0,02, OR 2.08, 95% CI 1.12 - 3.88), sugerindo uma associação.

Dentro do grupo com acesso ao exterior, 46,2% dos gatos com acesso livre e 68,3% daqueles com acesso restrito tinham pelo menos um sinal de SHF em casa, o que sugere que mesmo o acesso restrito pode não ser suficiente para mitigar esses comportamentos.

Carinho ao Longo da Coluna Vertebral (em casa):

30,8% dos gatos (64 gatos) exibiram pelo menos um sinal de SHF após serem acariciados na coluna vertebral em casa.

Gatos que reagiram ao carinho na coluna vertebral tinham significativamente mais chances de exibir sinais de SHF em casa (P < 0.001, OR 5.14, 95% CI 2.07 - 12.74).

 Comportamento Durante a Consulta Veterinária:

44,2% dos gatos (92 gatos) mostraram sinais de medo durante a consulta antes do exame físico.

Gatos que demonstraram medo durante a consulta foram mais propensos a exibir pelo menos um sinal de SHF em casa (P = 0,03, OR 2, 95% CI 1.05 - 3.81), sugerindo uma possível associação.

 Palpação Lombar (por veterinários):

30,8% dos gatos (64 gatos) reagiram à palpação lombar pelos veterinários.

Entre os gatos que reagiram à palpação lombar, 18,7% (12 gatos) não apresentavam sinais de SHF em casa, enquanto 81,3% (52 gatos) sim.

A reação à palpação lombar durante a consulta não foi associada à presença de sinais comportamentais de FHS em casa (P = 0,076, OR 1.91, 95% CI 0.93 - 3.93).

  • Discussão e Implicações Clínicas

Os resultados deste estudo são bastante reveladores. A alta prevalência (73,1%) de sinais comportamentais associados à SHF em gatos saudáveis sugere que muitos desses comportamentos fazem parte do repertório comportamental normal dos gatos e podem ser observados em qualquer animal, especialmente naqueles que vivem apenas em ambientes internos.

Isso tem uma implicação clínica muito importante: os veterinários devem estar cientes de que esses sinais são comuns em gatos saudáveis e devem ter cuidado para não superinterpretar esses comportamentos como sinais de doença, a menos que haja outros indícios. O estudo fornece dados de linha de base para futuras pesquisas.

 

Pontos Chave da Discussão:

Idade, Sexo e Raça: O estudo não encontrou associação entre idade, sexo ou raça com a presença de sinais de SHF em casa, contradizendo algumas literaturas que sugeriam maior prevalência em gatos jovens ou certas raças. Os autores ressaltam que seu estudo pode ter tido um número pequeno de gatos idosos ou de raças específicas para detectar essas associações.

Vida Interna: A forte associação entre a vida exclusivamente interna e a presença de sinais de SHF sugere que o acesso ao ambiente externo é uma necessidade básica para os gatos, conforme o "framework dos 5 pilares". A vida interna pode gerar frustração e desencadear comportamentos anormais. Além disso, tutores de gatos internos podem observar seus animais com mais frequência, o que levaria a uma maior percepção de anomalias comportamentais.

Reação ao Carinho: A correlação entre a presença de sinais de SHF em casa e reações adversas ao carinho na coluna vertebral pelo tutor (P < 0.001) é notável.

Palpação Lombar: Curiosamente, a palpação lombar por veterinários não mostrou associação significativa com a presença de sinais de SHF em casa. Isso reforça a ideia de que uma reação adversa à palpação lombar pode ser observada em gatos saudáveis e que nem sempre indica um problema subjacente de SHF.

Subjetividade da Percepção: A interpretação desses sinais pelos tutores é altamente subjetiva. Alguns podem considerá-los normais, enquanto outros podem relatar excessivamente, levando a um possível sobrediagnóstico.

Necessidade de um Sistema de Pontuação: Os autores sugerem que um sistema de pontuação para SHF seria útil para diferenciar gatos com sinais comportamentais intermitentes e leves (que podem ser normais) daqueles verdadeiramente afetados pela SHF e que necessitam de cuidados.

 

  • Limitações do Estudo

Natureza Transversal e Baseada em Pesquisa: O estudo é transversal e baseado em pesquisas, o que impede a avaliação confiável de taxas de incidência e a inferência de causalidade.

Subjetividade das Percepções dos Tutores: As respostas às perguntas de múltipla escolha se baseiam nas percepções subjetivas dos tutores, que podem variar.

Variações na Interpretação Veterinária: A participação de seis veterinários pode ter causado variações na interpretação das reações dos gatos.

Viés: A consciência dos veterinários sobre o objetivo do estudo poderia ter afetado a objetividade de sua avaliação, levando a um viés.

Número Limitado de Gatos: O pequeno número de gatos, especialmente de raças puras e idosos, é uma limitação que pode ter influenciado as análises estatísticas.

Fatores Não Coletados: Informações sobre outros animais na casa não foram coletadas, o que poderia impactar a qualidade de vida dos gatos.

Estado de Saúde Completo: Não foi possível garantir que todos os gatos estavam completamente livres de doenças, pois testes adicionais seriam demorados e antiéticos em visitas de rotina.

  •  Conclusão

Em resumo, o estudo destaca que uma grande maioria de gatos saudáveis exibe sinais comportamentais tipicamente associados à Síndrome de Hiperestesia Felina em casa. A avaliação desses sinais pelos tutores é subjetiva, o que pode levar a que sejam ignorados ou super-relatados. Reações adversas à palpação lombar por um veterinário também são comuns em gatos saudáveis, mesmo naqueles sem sinais de SHF em casa.

Os resultados sugerem que muitos desses sinais comportamentais não têm valor diagnóstico isoladamente. Os clínicos devem estar cientes disso para evitar um sobrediagnóstico da SHF. A proposta de um sistema de pontuação é um passo importante para ajudar a diferenciar gatos com comportamentos normais daqueles que realmente sofrem de FHS e necessitam de tratamento.

 

 

 
 
 

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