Práticas atuais de diagnóstico e manejo da Síndrome da Disfunção Cognitiva Canina entre veterinários nos EUA
- jiulisalles

- 4 de nov. de 2025
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Introdução - Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina
A Síndrome de Disfunção Cognitiva Canina (SDCC), frequentemente comparada à doença de Alzheimer em humanos, representa um grupo de alterações neurodegenerativas progressivas que afetam cães idosos. Caracteriza-se por uma deterioração das funções cognitivas, incluindo memória, aprendizado, percepção e consciência, que não pode ser atribuída a uma condição médica, neurológica ou comportamental diferente. Com o avanço da medicina veterinária e o aumento da expectativa de vida dos cães, o envelhecimento da população canina tornou-se uma preocupação crescente, trazendo consigo uma maior prevalência de doenças crônicas e degenerativas, entre as quais a SDCC se destaca.
Estudos indicam que a prevalência da SDCC aumenta significativamente com a idade, afetando uma parcela substancial de cães com mais de 8 anos e tornando-se ainda mais comum em animais acima de 12 anos. As características principais da síndrome manifestam-se em diversas áreas comportamentais, classicamente agrupadas em desorientação, interações alteradas (sociais e com o ambiente), alterações do ciclo sono-vigília, perdas na higiene e déficits na atividade e reatividade. Essas alterações comportamentais resultam de mudanças estruturais e funcionais no cérebro, incluindo acúmulo de placas beta-amiloides, degeneração neuronal e estresse oxidativo.
A importância clínica do diagnóstico precoce da SDCC é fundamental, não apenas para mitigar o sofrimento do animal e de seus tutores, mas também para possibilitar intervenções que retardem a progressão da doença e melhorem a qualidade de vida. No entanto, a prática veterinária atual enfrenta desafios significativos no diagnóstico e manejo da SDCC. A complexidade dos sinais clínicos, a dificuldade em diferenciá-los de outras comorbidades do envelhecimento e a falta de ferramentas diagnósticas padronizadas contribuem para o subdiagnóstico e tratamento inadequado da condição.
Entre os sinais clínicos mais frequentemente observados, as alterações no ciclo sono-vigília merecem destaque. Cães com SDCC podem apresentar insônia noturna, vocalizações noturnas, agitação e sonolência excessiva durante o dia, impactando profundamente o bem-estar do animal e a rotina familiar. A disfunção cognitiva compromete severamente a qualidade de vida do paciente, afetando sua capacidade de interagir com o ambiente e com seus tutores, e pode levar ao aumento do estresse e da ansiedade.
Diante da crescente prevalência e do impacto significativo da SDCC, torna-se imperativa a necessidade de diretrizes padronizadas para o diagnóstico e manejo. Conforme apontado por estudos recentes, a padronização das abordagens diagnósticas e terapêuticas é crucial para garantir que os cães afetados recebam o cuidado adequado, promovendo uma melhor qualidade de vida e apoiando os tutores no manejo dessa condição complexa.
Principais Achados
· Características dos Respondentes
Composição da Amostra:
-Total de respondentes: 318 veterinários (de 471 respostas iniciais)
- Ano de Formação:
2016-2024: 39.3% (125/318) - maioria dos respondentes
Anterior a 1986: poucos respondentes
Interpretação: Amostra enviesada para veterinários mais jovens, provavelmente mais familiarizados com plataformas digitais
· Percentual de Cães Idosos na Casuística
-Maioria (81.8%): 21-60% dos pacientes caninos são seniores
-Implicação: Apesar de grande proporção de cães idosos, a maioria das práticas não tem protocolo específico para eles
· Educação Sobre SDCC
Aprenderam sobre SDCC: 92.5% (294/318):
-Na escola veterinária: 61.6% (196/318)
-Em treinamento contínuo (CE): 76.1% (242/318)
Muitos aprenderam em AMBOS
Outras fontes: publicações revisadas por pares, literatura secundária, mentorado, experiência pessoal
· Associação Significativa: Graduação vs. Educação SDCC
Achado: Veterinários mais recentes tinham significativamente MAIOR probabilidade de ter aprendido sobre SDCC na escola
Porém: Veterinários de TODAS as classes de formação relaram falta de educação SDCC
· Diagnóstico de SDCC
Prevalência de Diagnóstico na Prática:
-Quase todos (97.2%) diagnosticaram pelo menos 1 caso de SDCC em suas carreiras (309/318)
-Frequência anual de diagnósticos:1-15 casos/ano: 61.2% (189/309) Mais comum
· Faixa Etária de Diagnóstico
13-15 anos: 64.4% (199/309) - idade pico para diagnóstico
10-12 anos: 31.4% (97/309) - segunda mais frequente
<10 ou >15 anos: significativamente menos comum
· Percentual de Pacientes Diagnosticados
1-20% dos pacientes: 51.9% (165/318) - a maioria dos vets diagnostica POUCO
>20%: minoria
Nenhum diagnóstico: apenas 0.6% (2/318)
"Não sabe": 12.9% (41/318)
· Encaminhamentos a Especialistas
RARAMENTE refere: 43.7% (139/318)
NUNCA refere: 44.3% (141/318) - total de 88% raramente/nunca
Para quem referem (quando o fazem):Neurologista veterinário: 74.0% (131/177) Preferência esmagadora
· Ferramentas Diagnósticas Utilizadas
Combinações de Ferramentas:
-Quase todos (307/309) usam combinação de ferramentas
-Combinação mais comum: História + sinais clínicos + exame físico
-Segunda mais comum: História + sinais + exame físico + exame neurológico + testes de laboratório
· Frequência Individual de Cada Ferramenta

· Testes Laboratoriais Utilizados (entre 153 que usam labs)
CBC + Bioquímica sérica + Urinalise: 77.1% (118/153)
· Ferramentas de Screening Utilizadas (entre 100 que as usam)
-Purina's DISHAA Cognitive Dysfunction Syndrome Evaluation Tool: 43.0% (43/100) - Dominante
-Múltiplas ferramentas: 28.0% (28/100)
-Outras ferramentas individuais: CCDR, CADES, CCAS (frequências menores)
· Sinais Clínicos Considerados no Diagnóstico
Frequência de Sinais Observados:

· Outros Sinais Mencionados (respostas abertas)
Andar/comportamentos compulsivos
Mudanças de apetite
Perder comportamentos aprendidos
Circulação
Ficar preso em cantos
Mudanças vocais
Resistência ao manejo
Falta de movimento proposital
· Necessidades para Maior Confiança Diagnóstica
O Que os Vets Querem?
-Critérios diagnósticos padronizados: 63.8% (203/318) - DEMANDA #1
-Treinamento especializado: 15.7% (50/318)
-Ferramentas de screening adicionais: 6.3% (20/318)
-Recursos primários acessíveis: 4.1% (13/318)
-Recursos online: 3.8% (12/318)
-Caminhos de referência formais: 1.3% (4/318)
-Nenhum (confiante): 2.5% (8/318)
· MANEJO/TRATAMENTO
Estratégias de Tratamento Recomendadas - Frequência de Recomendação por Categoria

· Qual Consideraram MAIS EFETIVA?

· Produtos Farmacêuticos Específicos - Detalhes
Frequência de Recomendação

· Qual Consideraram MAIS EFETIVA?

· Dos que Escolheram Selegilina como MAIS EFETIVA
Entre 135 que escolheram farmacêuticos como melhor estratégia: 49.6% (67/135) escolheram selegilina especificamente.
· Problemas de Consistência Descobertos
-14.1% (19/135) de vets que escolheram farmacêuticos como mais efetivos depois escolheram um suplemento ou dieta como produto mais efetivo.
-18.5% (25/135) que escolheram farmacêuticos depois disseram não usar nem encontrar qualquer produto efetivo.
-16.0% (8/50) que escolheram suplementos depois escolheram selegilina como mais efetiva.
-14.4% (45/312) relatam não encontrar NENHUM produto efetivo, mas 86.7% (39/45) já tinham recomendado 2+ desses mesmos produtos.
· Medicações Adicionais Mencionadas (respostas abertas)
Anti-ansiedade (mencionadas múltiplas vezes):
-Gabapentina (11 menções)
-Trazodona (3 menções)
-Clomipramina (1 menção)
-Zylkene® (2)
-Solliquin® (3)
-Proquiet® (1)
-Anxitane® (1)
· Outros Fármacos e Suplementos (frequências várias)
-CBD: 3 menções
-Acepromazina: 1
-Amantadina: 1
-Keppra: 2
-SSRIs: 1 (fluoxetina também)
-Propentofilina: raramente recomendada (2/312, 0.6%)
· Suplementos e Outros
-Omega-3: 3-4 menções
-CoQ10: 1
-Lion's mane mushroom: 2
-Huperzine A: 1
-TriPlex™ MCT oil: 1 (importante - tem evidência!)
-Dietas alternativas: Royal Canin Mature, Nutrix, Hill's Senior Vitality
· Avaliação de Eficácia Geral
Impressão Geral dos Veterinários:
-Levemente efetivas: percentual significativo
-Moderadamente efetivas: percentual significativo
-~90% COMBINADOS consideram eficácia "leve a moderada" APENAS ⚠️⚠️⚠️
-Muito efetivas: apenas 1.3% acha assim
-Implicação: Enorme insatisfação com opções atuais
· Barreiras para Recomendação de Produtos
Frequência de Barreiras

· Achado Crítico: Discordância Veterinário-Veterinário
-Cerca de 47% citam falta de conhecimento como barreira para recomendar produtos
-Isso é paradoxal com o achado de que 92.5% aprenderam sobre SDCC em algum momento
Interpretação: Educação recebida ≠ confiança clínica aplicada
· Combinações de Tratamento Mais Comuns
Monitoramento Multimodal:
-Frequência dominante (10.3%): Fármacos + suplementos + mudança dietética + modificação ambiental
-Segunda (9.6%): Tudo acima + exercício físico
Interpretação: Maioria usa abordagem multifatorial
· DISCUSSÃO - ANÁLISE E IMPLICAÇÕES
Achados Principais Discutidos
Diagnóstico - Frequência vs. Expectativa:
-Achado: Maioria diagnostica POUCO (1-15 casos/ano)
-Discussão: Levanta questão se há subdiagnóstico real
-Possibilidades:
Verdadeira falha em identificar casos sintomáticos
Alguns cães morrem antes dos sinais aparecerem
Diagnóstico despriorizado por comorbidades
Falta de opções de tratamento desencoraja diagnóstico
Falta de comunicação ou compreensão pelo proprietário
Subutilização de Ferramentas Diagnósticas
-Achado problemático: Apenas ~49% fazem exame neurológico
-Ainda mais problemático: <2% fazem imagem
-Razão possível: "Neurofobia" - aversão à neurologia documentada em medicina humana E veterinária
-Problema: SDCC é diagnóstico de exclusão - precisa excluir outras condições (dor crônica, doença renal, tumores intracranianos, perda sensorial)
-Gap adicional: Mesmo que o exame neuro seja "relativamente fácil", não é amplamente usado
· Subutilização de Ferramentas de Screening
-Achado: Apenas ~1/3 usa questionários de screening
-Contexto: Questionários validados EXISTEM (DISHAA, CCDR, CADES, CCAS)
-Paradoxo: 43% que usam screening usam APENAS Purina DISHAA
-Implicação: Mais opções de ferramentas poderiam ajudar
· Falta de Diretrizes Formais é CRÍTICA
Em medicina humana: Existem diretrizes formais do NIA-AA e outras para diagnóstico de Alzheimer's
Mesmo assim: Muitos pacientes AINDA não são diagnosticados
Em medicina veterinária: Não há diretrizes formais em TUDO
Resultado: Inconsistência total nas práticas
· Educação vs. Confiança - A Grande Desconexão
O Paradoxo:
-92.5% aprenderam sobre SDCC
-MAS ~50% relatam falta de conhecimento sobre opções de tratamento
Interpretação: Existe desconexão entre educação e confiança/aplicação clínica
· Recomendação Editorial
-Expansão de currículo de medicina geriátrica veterinária necessária
-Programas CE específicos para SDCC podem melhorar
· O Papel Central do Clínico Geral
Achado Crítico:
-Maioria (88%) raramente/nunca refere a especialistas
-Maioria (87.7%) dos respondentes ERAM clínicos gerais
Conclusão: Clínicos gerais são a porta de entrada para diagnóstico SDCC
· Implicação
-Educação deve focar em clínicos gerais, não especialistas
-Necessário melhorar confiança deles
· Inconsistências e Incerteza na Eficácia
Discordância Produto-Estratégia:
-Alguns escolhem estratégia farmacêutica como melhor, depois escolhem suplemento ou dieta como produto mais efetivo
-Alguns escolhem farmacêuticos como estratégia, depois dizem nenhum é efetivo
Interpretação: Grande ambiguidade sobre eficácia real e falta de clareza sobre definições
· O Achado Mais Preocupante
-14.4% (45/312) dizem não encontrar NENHUM produto efetivo
-MAS 86.7% (39/45) já tinham RECOMENDADO 2+ dos mesmos produtos!
Interpretação: Contradição flagrante - recomendam produtos em que não acreditam?
Possível explicação: Anedota vs. Evidência - recomendam baseado em histórias, não convencimento real
· Possível Causas de Incerteza
-~25% citam falta de testes em ensaios clínicos como barreira
-Maioria dos suplementos carece de teste robusto em cães com SDCC
Exceções com evidência:
-Selegilina (reconhecida pela FDA)
-Dietas com MCT (Pan et al. 2018, Milgram et al. 2010)
-Combinação senolítico + NAD+ precursor (novo estudo 2024)
· Eutanásia em SDCC
Achado:
-A maioria (180/316, 57.0%) citou combinação de fatores levando a eutanásia
-Fator mais frequente isoladamente: Eliminação inapropriada (19.6%)
-Apenas 3.8% (12/312) nunca tiveram caso eutanasiado
· Perspectivas não abordadas
Perspectiva do Proprietário:
-Achado importante: Veterinários e proprietários DIFEREM em opiniões sobre cuidados veterinários para idosos (citação de Wallis et al. 2024)
-Barreira mencionada: Proprietários não entendem ou falta de interesse ("falta de conhecimento de proprietário")
Sugestão para estudos futuros: Examinar perspectivas de proprietários
· Limitações do Estudo Reconhecidas
Viés de Amostragem:
-Amostra enviesada para veterinários mais jovens (39.3% formados 2016-2024)
-Possível causa: Distribuição via redes sociais e veterinários de mídia social tenderam a compartilhar
Implicação: Resultados podem não representar populações mais velhas de vets
Link para o estudo: https://www.frontiersin.org/journals/veterinary-science/articles/10.3389/fvets.2025.1685430/full




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