Resposta Clínica de Longo Prazo ao Tratamento Médico, Terapia Comportamental ou a Sua Combinação em Gatos com Síndrome de Hiperestesia
- jiulisalles

- 10 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
Este estudo recém publicado, investigou as respostas clínicas e os desfechos de longo prazo em 28 gatos diagnosticados com Síndrome de Hiperestesia (SH), uma condição enigmática e muitas vezes debilitante para esses animais. O principal achado é que a maioria dos gatos conseguiu uma melhora significativa, com a ausência de sinais clínicos por um período prolongado, independentemente da abordagem terapêutica utilizada.
O que é ?
A SH, também conhecida como "síndrome da pele ondulante" ou "doença do gato que se contorce", é uma condição comum, mas ainda pouco compreendida em gatos. Ela é caracterizada por episódios de hipersensibilidade na pele lombar, que pode apresentar ondulações ou tremores. Além disso, os gatos podem ter surtos súbitos de atividade, saltos inesperados e, em alguns casos, automutilação, especialmente na cauda.
Sinais clínicos
Além das ondulações na pele, os gatos podem lamber ou morder a região dos flancos e lombar, ter espasmos musculares na parte dorsal da região lombar, cauda e área anal. Casos graves podem levar à automutilação da cauda, exigindo intervenção médica urgente. Outros sinais incluem vocalizações, saltos e corridas súbitas, aparentes alucinações e mudanças comportamentais.
Causas/Hipóteses
A SH tem sido associada a diversas causas, incluindo distúrbios neurológicos (como epilepsia, encefalite, tumores cerebrais), condições da coluna vertebral (doença do disco intervertebral, mielite infecciosa, neoplasias da coluna) e problemas dermatológicos (dermatite de hipersensibilidade). Além disso, há uma forte hipótese de que seja um problema comportamental, como um distúrbio de deslocamento, onde o animal manifesta uma atividade fora de contexto por não conseguir realizar outra resposta comportamental. Por essa incerteza, tratamentos passados variavam amplamente.
Tratamentos anteriores utilizados
Historicamente, uma variedade de medicamentos foi usada, incluindo fenobarbital, diazepam, prednisona (anti-inflamatório), gabapentina (analgésico adjuvante), e uma série de modificadores de comportamento como lorazepam, oxazepam, buspirona, amitriptilina, fluoxetina, paroxetina ou clomipramina.
Objetivo do estudo
O estudo teve como objetivo principal descrever os desfechos clínicos de 1 ano e a resposta ao tratamento em 28 gatos com SH, que foram manejados através de diferentes estratégias terapêuticas.
Metodologia
Tipo de Estudo: Foi um estudo retrospectivo, observacional e descritivo, analisando prontuários de gatos atendidos entre janeiro de 2018 e dezembro de 2023.
Critérios de Inclusão: Gatos deveriam apresentar sinais clínicos consistentes com SH, ter passado por um exame neurológico completo, e, se aplicável, por uma avaliação comportamental. Além disso, deviam ter exames de sangue e soro normais, nenhuma anormalidade na ressonância magnética (RM) da coluna lombar ou no líquido cefalorraquidiano (LCR), e um período mínimo de acompanhamento de pelo menos 1 ano.
Critérios de Exclusão: Gatos com histórico de condições dermatológicas claras que pudessem mimetizar os sinais, mielopatia lombar, doenças inflamatórias ou infecciosas, neoplasias espinhais, trauma primário na coluna ou cauda, ou doença do disco intervertebral foram excluídos.
Grupos de Tratamento: Os 28 gatos foram divididos em três grupos com base no tratamento recebido:
Fluoxetina-sozinha (16 gatos, 57%): Receberam apenas fluoxetina, geralmente porque os tutores recusaram a terapia comportamental devido a restrições financeiras ou logísticas.
Fluoxetina/Gabapentina + Comportamento (7 gatos, 25%): Receberam modificação comportamental associada à farmacoterapia (fluoxetina e/ou gabapentina).
Comportamento-sozinho (5 gatos, 18%): Foram tratados apenas com modificação comportamental, indicando um alto nível de adesão do tutor.
Tempo de Recuperação: Definido como o número de dias desde o início da terapia até a resolução dos sinais clínicos.
Período Livre de Episódios (PLE): O tempo entre a resolução dos sinais clínicos e o acompanhamento de 1 ano, durante o qual nenhuma recorrência foi observada.
Modificação Comportamental: Foi baseada no "Estrutura dos 5 Pilares", que visa criar um ambiente enriquecido para o gato, minimizando o estresse. Os pilares incluem: espaço seguro, disponibilidade de recursos, oportunidades para brincar e caçar, interação social positiva e enriquecimento olfativo.
Resultados
-Melhora Geral: Durante o primeiro mês de tratamento, 24 gatos (86%) apresentaram melhora clínica, e 15 (54% do total) tiveram resolução completa dos sinais.
-Período Livre de Episódios (PLE) ≥ 9 meses:
Geral: 23 dos 28 gatos (82%) apresentaram um PLE de pelo menos 9 meses.
Fluoxetina-sozinha: O grupo com o maior sucesso, com 15 de 16 gatos (94%) atingindo um PLE ≥ 9 meses.
Comportamento-sozinha: 4 de 5 gatos (80%) tiveram PLE ≥ 9 meses.
Fluoxetina/Gabapentina + Comportamento: 4 de 7 gatos (57%) alcançaram esse PLE, sendo o grupo com a menor porcentagem nesse critério.
-Tempo de recuperação:
Fluoxetina-sozinha: Foi o grupo com o tempo de recuperação mais rápido, com uma mediana de 8 dias (intervalo interquartil - IQR de 3,5 a 18 dias).
Comportamento-sozinho: Mediana de 60 dias (IQR de 30 a 90 dias).
Fluoxetina/Gabapentina + Comportamento: Mediana de 100 dias (IQR de 90 a 210 dias), sendo o mais demorado.
-Ausência de sinais clínicos em 1 ano:
Geral: 26 dos 28 gatos (93%) não apresentavam mais sinais clínicos de SH no acompanhamento de 1 ano.
Fluoxetina/Gabapentina + Comportamento e Comportamento-only: Ambos os grupos tiveram 100% dos gatos sem sinais clínicos.
Fluoxetina-sozinha: 14 de 16 gatos (87,5%) estavam sem sinais.
-Recidivas:
Apenas 1 caso de recidiva (4%) foi relatado, e ocorreu no grupo Fluoxetina-only, associado à interrupção da farmacoterapia. Nos grupos com modificação comportamental, não houve recidivas.
-Uso de farmacoterapia em 1 ano:
Fluoxetina-sozinha: A maioria dos gatos (81%) ainda estava sob farmacoterapia em 1 ano.
Fluoxetina/Gabapentina + Comportamento: Apenas 14% dos gatos ainda usavam medicação.
Comportamento-sozinho: Nenhum gato estava sob farmacoterapia.
-Ajustes de terapia e Eventos adversos:
Fluoxetina-sozinha: 50% dos gatos precisaram de ajuste na dose da fluoxetina. 37,5% tiveram efeitos colaterais (principalmente anorexia, diarreia, vômitos), que eram dose-dependentes e leves.
Fluoxetina/Gabapentina + Comportamento: 43% tiveram modificação na terapia, e 14% apresentaram efeitos adversos (agitação excessiva).
Comportamento-sozinho: Não foram relatados efeitos adversos ou modificações de terapia.
Discussão
Os autores destacam que o achado mais relevante é a alta taxa de sucesso na resolução dos sinais clínicos de SH e o longo PLE, independentemente da abordagem. Isso sugere que todas as estratégias (farmacoterapia, terapia comportamental ou a combinação) são válidas e eficazes no manejo da SH em gatos.
Impacto da Terapia Comportamental:
A ausência de recidivas nos grupos que incluíram modificação comportamental, e o fato de que a maioria dos gatos desses grupos conseguiu suspender a medicação em 1 ano, sugere que a terapia comportamental é crucial para controlar os fatores desencadeantes da SH. Isso permite a descontinuação da medicação após alguns meses de tratamento, um ponto fundamental para a qualidade de vida do animal e do tutor.
Velocidade de Ação: Embora a terapia comportamental seja importante a longo prazo, o tratamento apenas com fluoxetina mostrou um tempo de recuperação significativamente mais rápido. Isso pode ser influenciado pela maior duração dos sinais clínicos antes do início da terapia nos outros grupos, ou pela possibilidade de que a fluoxetina tenha um efeito mais rápido na remissão dos sinais. Os autores especulam que a fluoxetina pode ser especialmente útil em casos mais graves ou quando uma remissão rápida é necessária, ou ainda quando não há disponibilidade de um especialista em medicina comportamental.
Componente Neurocomportamental: O sucesso das terapias comportamentais reforça a hipótese de um forte componente neurocomportamental na SH. Estressores ambientais e sociais, como acesso restrito ao território, mudanças na rotina doméstica, presença de outros animais e interações humano-gato negativas, podem desequilibrar o bem-estar emocional do gato e manifestar-se como SH. A estrutura dos "5 Pilares" da modificação comportamental visa mitigar esses estressores.
Mecanismos farmacológicos
-Gabapentina: Um análogo do GABA, utilizado como anticonvulsivante e para dor neuropática, tem propriedades ansiolíticas. Pode ser usada para reduzir o estresse em gatos.
-Fluoxetina: É um inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS), aumentando a disponibilidade de serotonina no cérebro. É usada para distúrbios comportamentais como marcação urinária, agressão e comportamentos compulsivos. Os efeitos adversos observados no estudo foram leves e relacionados à dose (anorexia, sinais gastrointestinais).
Ambos os medicamentos atuam na dimensão psicológica da SH devido às suas propriedades ansiolíticas.
Limitações do estudo
Os autores reconhecem limitações importantes, como o design retrospectivo, o tamanho pequeno da amostra e a heterogeneidade dos grupos, o que impede tirar conclusões definitivas sobre a superioridade de uma terapia sobre outra. Além disso, a avaliação da resolução dos sinais clínicos baseou-se principalmente nos relatos dos tutores, o que pode levar a uma superestimação, já que alguns sinais sutis podem não ter sido observados.
Conclusão
Apesar das limitações, o estudo fornece evidências valiosas de que a maioria dos gatos com Síndrome de Hiperestesia pode alcançar um Período Livre de Episódios longo e a resolução dos sinais clínicos em 1 ano, seja com tratamento médico, terapia comportamental ou uma combinação.
Os autores sugerem que a abordagem combinada de farmacoterapia e modificações comportamentais pode representar a estratégia multimodal ideal para tratar a SH em gatos, levando a um desfecho favorável a longo prazo. A farmacoterapia pode servir como um suporte inicial, permitindo uma redução gradual e eventual descontinuação dos medicamentos à medida que as mudanças comportamentais se tornam eficazes. No entanto, ressaltam a necessidade de estudos prospectivos e randomizados para validar essas hipóteses e determinar o protocolo terapêutico mais eficaz.
Em resumo, o artigo aponta para a eficácia de diferentes abordagens no manejo da SH em gatos, com um destaque para o papel complementar e de longo prazo da terapia comportamental, que pode levar à descontinuação da medicação e à ausência de recidivas.
Link para acessar o artigo: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jvim.70174?af=R




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