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Uma revisão sistemática de instrumentos de pontuação (escores) de dor aguda e suas propriedades de mensuração em gatos e cães

  • Foto do escritor: jiulisalles
    jiulisalles
  • 21 de fev.
  • 6 min de leitura

Resumo/Contexto

A avaliação de dor aguda pode envolver o uso de instrumentos de pontuação de dor (escalas/escores). Como cães e gatos não conseguem “relatar” dor verbalmente, esses instrumentos servem para apoiar a tomada de decisão clínica, por exemplo, sobre a necessidade de analgesia.


Introdução

O artigo reforça que a dor é uma experiência multidimensional (envolve componentes sensoriais e emocionais) e afeta negativamente o bem-estar animal, levando a sofrimento, medo e ansiedade.Como os animais não conseguem auto-relatar a dor, instrumentos de pontuação precisam distinguir animais com dor de animais sem dor de forma repetível, em diferentes ambientes e por diferentes avaliadores, ajudando decisões como iniciar/ajustar analgesia.O texto diferencia dor aguda (geralmente ligada a dano tecidual e mais limitada no tempo) de dor crônica (tipicamente persistente por mais de 3 meses e podendo ser considerada doença).A avaliação clínica de dor aguda em cães e gatos depende de sinais observáveis, como postura, vocalização, interação com o ambiente/observador, atenção à área dolorida, resposta à palpação e expressões faciais.

 

Materiais e métodos

Foram consultadas cinco bases bibliográficas (sem restrição por data), com estratégia voltada a instrumentos de avaliação de dor aguda e suas propriedades de mensuração.

Foram incluídos estudos de desenvolvimento/validação de instrumentos para dor aguda em cães e gatos; e excluídos estudos de dor crônica, ausência de escore ordinal e publicações/instrumentos não em inglês.

A triagem foi realizada em etapas (título/resumo e texto completo) por dois revisores.

Os dados relevantes sobre instrumentos e suas propriedades foram extraídos de forma padronizada.

Aplicou-se COSMIN para avaliar sete propriedades: validade de conteúdo, consistência interna, confiabilidade, erro de medida, validade de critério, validade de constructo e responsividade.

 

Resultados

A revisão sistemática identificou 25 estudos elegíveis que, em conjunto, avaliaram 15 instrumentos (OMIs) para pontuar dor aguda em cães e gatos (tabela 6). Os instrumentos variaram de escalas multidimensionais/comportamentais (com vários itens observáveis) a escalas mais simples (por exemplo, versões numéricas/descritivas), incluindo também instrumentos baseados em expressão facial (grimace scales).

O artigo destaca que a literatura disponível é heterogênea: os estudos diferem em contexto clínico (ex.: dor pós-operatória e outras causas agudas), populações avaliadas, treinamento de avaliadores, maneira de testar analgesia, e principalmente em quais propriedades de mensuração foram realmente testadas e como foram reportadas. Isso impacta diretamente a capacidade de comparar instrumentos e de afirmar “qual é melhor” com alto grau de certeza.

Propriedades de mensuração

Ao aplicar o referencial COSMIN e o checklist de risco de viés, a revisão observou que as propriedades de mensuração mais frequentemente reportadas nos estudos foram:

  • Confiabilidade (reliability): se diferentes avaliadores (ou o mesmo avaliador em momentos próximos) obtêm escores semelhantes em condições equivalentes.

  • Validade de constructo (construct validity): se o instrumento se comporta como esperado quando a dor “deveria” mudar (por exemplo, melhora após analgesia, piora com estímulo doloroso/palpação, diferenças entre grupos).

  • Validade de critério (criterion validity): correlação/associação com um “critério” externo.

Em contrapartida, duas áreas cruciais aparecem como lacunas recorrentes:

  • Validade de conteúdo (content validity): se os itens do instrumento realmente cobrem o “universo” de comportamentos/expressões relevantes para dor naquela espécie e contexto. A revisão sugere que, em vários instrumentos (especialmente em cães), isso foi insuficientemente demonstrado ou descrito.

  • Responsividade (responsiveness): se o instrumento detecta mudanças clinicamente relevantes ao longo do tempo (por exemplo, antes/depois de analgesia, evolução do pós-operatório). Mesmo quando avaliada, a responsividade foi frequentemente limitada por desenho, tamanho amostral, ou análise incompleta.

O artigo também reforça um problema estrutural da área: não existe um padrão‑ouro universal para dor em pequenos animais. Isso torna a validade de critério particularmente difícil, porque muitas vezes o “critério” usado é um substituto imperfeito (por exemplo, julgamento clínico, necessidade de resgate analgésico, ou outro instrumento também não perfeito). Na prática, a revisão favorece a valorização de um “conjunto de evidências” (várias propriedades coerentes) em vez de depender de uma única comparação.

Quais instrumentos se destacaram (principalmente em gatos)

Entre os instrumentos avaliados, a revisão aponta que, nos gatos, três ferramentas concentraram a melhor qualidade de evidência e resultados mais consistentes, por apresentarem, de forma mais convincente, combinação de:

  • validade (critério e constructo),

  • confiabilidade,

  • e responsividade:

  • UNESP-Botucatu Multidimensional Pain Scale (MCPS)

  • UNESP-Botucatu – forma curta (UFEPS-SF)

  • Feline Grimace Scale (FGS)

O texto sugere que esses instrumentos, além de mais estudados, foram avaliados de modo mais alinhado com o que se espera para uso clínico: distinguir dor vs. não dor, e captar melhora/piora de forma reprodutível.

Por que cães ficaram “atrás” na evidência

Para cães, a revisão descreve uma realidade menos favorável: vários instrumentos apresentaram evidência mais fraca e menor qualidade metodológica, com problemas como:

  • ausência (ou fragilidade) de estudos de desenvolvimento do instrumento (isto é, como e por que itens foram escolhidos);

  • relato incompleto de métodos (dificultando julgar risco de viés);

  • validações parciais (testando algumas propriedades, mas deixando de fora outras essenciais);

  • dependência de comparações com critérios externos não padronizados.

Assim, a conclusão dos resultados não é que “não existem escalas úteis em cães”, e sim que, com base no conjunto de evidências disponível, a sustentação metodológica é menos sólida do que em gatos.


Discussão

A discussão interpreta os achados sob uma lente central: a qualidade de um instrumento de dor não depende só de ele “parecer funcionar”, mas de demonstrar, com métodos adequados, que ele mede dor de forma válida, confiável e sensível a mudanças, e que funciona no mundo real (diferentes avaliadores, diferentes momentos, diferentes cenários).

1) O que significa “bom instrumento” na prática clínica

O artigo reforça implicitamente que um instrumento útil precisa cumprir três papéis clínicos principais:

  • Detectar dor (triagem/diagnóstico funcional): separar o paciente com dor do paciente sem dor, mesmo quando sinais são sutis (especialmente relevante em gatos).

  • Guiar decisão analgésica: apoiar decisões como administrar analgesia, ajustar dose ou realizar resgate analgésico.

  • Monitorar evolução: mostrar melhora após tratamento e identificar falhas de analgesia (o que depende de responsividade).

A escala precisa ser “um termômetro” que não varie ao acaso, e que mude quando o animal realmente melhora ou piora.

2) Por que a ausência de “padrão‑ouro” muda a interpretação das validações

A revisão discute que, na dor veterinária, frequentemente não existe um “exame” definitivo que diga com certeza a intensidade de dor em um animal. Isso complica o conceito de validade de critério.

Com isso, instrumentos acabam sendo validados por caminhos indiretos, como:

  • melhora do escore após analgesia (se a analgesia foi adequada e se não há vieses de observação),

  • associação do escore com decisão de resgate analgésico,

  • correlação com outros instrumentos (que também podem ter limitações),

  • diferenças esperadas entre grupos (ex.: procedimentos mais dolorosos vs. menos dolorosos).

Isso reforça a importância de validade de constructo bem conduzida e de múltiplas evidências convergentes.

3) “Validade de conteúdo” (especialmente em cães)

Um ponto forte da discussão é a ênfase em validade de conteúdo — frequentemente esquecida porque dá trabalho: exige justificar que os itens escolhidos representam de fato dor (e não apenas estresse, medo, sedação, disforia ou temperamento).

A revisão sugere que parte do problema dos instrumentos em cães é que, mesmo quando se mede confiabilidade e se encontra alguma correlação, às vezes não está claro se o instrumento cobre:

  • comportamentos realmente ligados à dor (e não a ansiedade),

  • efeitos de fármacos (sedação pode “baixar” escore sem baixar dor),

  • diferenças de raça/temperamento/ambiente.

Isso é particularmente relevante em cães, onde a variedade comportamental é enorme. A discussão indica, assim, que escalas podem “funcionar” em um contexto e falhar em outro se a base de conteúdo não estiver bem ancorada.

4) Responsividade: sem ela, a escala pode ser “bonita”, mas pouco útil para monitorar

A revisão ressalta que responsividade foi pouco estudada em vários instrumentos. Isso limita o uso para monitoramento (ex.: pós-operatório). Um instrumento pode até diferenciar “dor vs. não dor” em um ponto no tempo, mas se não detecta mudança após analgesia de forma consistente, ele perde força como ferramenta para:

  • ajustar protocolos,

  • comparar intervenções,

  • ou medir desfecho em pesquisa.

A discussão aponta que melhorar responsividade exige desenho com momentos adequados de avaliação, intervalos coerentes, controle de variáveis (sedação, temperatura, ambiente), e análises apropriadas para mudança clínica (não só mudança estatística).

5) Por que gatos têm melhor evidência

O artigo conclui que gatos apresentam instrumentos com evidência melhor (MCPS/UFEPS-SF/FGS). A discussão sugere que isso reflete uma combinação de fatores:

  • maior investimento recente em instrumentos felinos,

  • instrumentos que contemplam múltiplas dimensões (ou sinais faciais específicos),

  • e validações mais completas/robustas para propriedades essenciais.

Clinicamente, isso combina com um ponto bem conhecido por veterinários: gatos mascaram dor, o que pressiona a comunidade a criar ferramentas mais sensíveis e específicas.

6) Implicações para pesquisa e rotina: padronização e transparência

A discussão enfatiza a necessidade de processos mais rigorosos e padronizados, alinhados ao COSMIN e bem reportados, porque sem isso:

  • pesquisadores não conseguem comparar estudos e acumular evidência,

  • clínicos não conseguem confiar que uma escala é estável fora do estudo original,

  • e a dor pode ser subtratada por falhas de detecção/monitoramento.

 

Conclusão

O artigo conclui que as evidências e propriedades de mensuração dos instrumentos para dor aguda são melhores em gatos do que em cães, e que são necessários estudos mais rigorosos e padronizados para aprimorar a aplicação clínica dos instrumentos, sobretudo em cães.



 
 
 

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